Os Livros Ardem Mal

Arménio Vieira (III)

Posted in Autores by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 10-07-2008

COLIBRI COLORIDO

Com a Suma Teológica na mão
e um candeeiro sobre a mesa,
passei uma noite em claro
pesando os prós e os contras
de haver Deus e o Diabo,
e, consequentemente, duas
balanças, uma no Céu e outra
no Inferno. Na rua, não obstante
o frio, ouvia-se o cantarolar
dos bêbedos, ao qual se juntava
uma outra música, melhor
e mais antiga, já que as putas
quando riem são aves a cantar.
A seguir deve ter chovido, e muito,
porque as próprias rãs se calaram.
Fechei o livro e pus-me a pensar se a morte
e suas sequelas valiam uma noite
de insónia. Nisto, um pássaro pousou
na janela e depois entrou no quarto.
Ora bem, não era um corvo, senão seria
negro. Não era negro nem falou.
Talvez fosse um colibri, mas um colibri
pintado com todas as cores do arco-íris.
Os animais, segundo os teólogos,
não têm alma. Quando morrem é de vez,
são como a lâmpada que se funde, compra-se
outra e já está. Tinha parado de chover.
Bem, o livro estava ali e coloquei
o pássaro em cima. Pus um disco a tocar.
Uma dança de Tchaikovsky, ao acaso.
As aves não têm alma, a menos que…
saibam dançar. Não digo mais nada.

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