Os Livros Ardem Mal

Arménio Vieira (I)

Posted in Autores, Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 09-07-2008

É um objecto estranho, esta «Antologia de Poesia Inédita Caboverdiana», organizada por Francisco Fontes e intitulada Destino de bai. Entre outras coisas pelo seu conteúdo – «poesia inédita» -, revelador da dificuldade em passar da escrita à edição em Cabo Verde, ainda hoje. Mas também por abrir com um «Prefácio» de José Maria Neves, Primeiro-Ministro de Cabo Verde, e por terminar com um poema seu que, seguramente, ganharia em permanecer inédito. Como, já agora, muitos outros da antologia e não apenas de gente inédita em livro… Continuamos, como dizia João Vário a propósito da poesia de Cabo Verde, a assistir à obsessão, típica das literaturas emergentes, de apresentar grandes colectâneas daquilo que ganhava em ser bem mais reduzido.

Mas bastariam os poemas inéditos de G. T. Didial, um dos noms de plume de João Varela, de quem aqui ficamos a conhecer excertos do seu poema épico pan-africano Sturiadas, e ainda os poemas inéditos de Arménio Vieira, para este livro justificar a sua existência.

Fico-me pelo segundo nome, um dos segredos mais bem guardados da literatura caboverdiana (desde logo pelo próprio, pouco dado a ausentar-se do seu mundo), autor de dois notáveis romances, aliás editados em Portugal sem qualquer tipo de impacto, talvez por nada dizerem ao programa identitário herdado da Claridade, e de uma produção poética que se distribui hoje, ao que sei, pela sua obra até 2006, reunida em Poemas (uma colectânea magra para cerca de quatro décadas), e por um livro entretanto editado, Mitografias, que não conheço. Vieira é um dos melhores poetas de entre os que hoje escrevem em português, e estes sete poemas, de grande e desenfadada maturidade, são disso prova evidente, na sua sábia administração do «estilo mesclado», tal como este foi estudado e desenvolvido na filologia moderna por Erich Auerbach, neste caso na passagem de um registo erudito e citacional – cujos objectos são ainda os grandes heróis da literatura e do pensamento modernos, mas que podem recuar até aos clássicos – para a oralidade de um quotidiano dito, com frequência, por um nível baixo de linguagem; na sua interrogação, sempre ressalvada e desistente, da morte; ou numa ironia algo drummondiana, que, podendo alcançar o metafísico ou, de forma mais chã, o doméstico, nunca deixa de funcionar a nível composicional, dando a ver a grande inteligência formal e, não raro, metapoética, do autor.

Tomo a liberdade de, em próximos posts, transcrever alguns desses poemas, apresentando o poeta não apenas aos leitores portugueses mas também a algum editor clarividente e caridoso que se atreva a publicá-lo por cá.

Francisco Fontes, org. (2008). Destino de bai. Antologia de Poesia Inédita Caboverdiana, Coimbra, Saúde em Português, 356 pp. [978-989-958556-0-7]

Osvaldo Manuel Silvestre

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