Os Livros Ardem Mal

Da crítica dogmática

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 23-06-2008

Como ando a ler os últimos livros de Fátima Maldonado (Vida Extenuada, & etc) e Nuno Júdice (A Matéria do Poema, D. Quixote), não pude deixar de reparar na resenha publicada ontem sobre o primeiro destes livros por Manuel de Freitas (MF) no Actual, do Expresso. O texto de MF concentra tudo aquilo que não suporto na prática crítica; e o concentrado é tal que me leva a pôr em causa que se possa chamar a este espécime um texto crítico. Prefiro chamar-lhe um acesso moralista (mais um, numa longa série), como sempre caucionado por uma negatividade supostamente intransigente, supostamente indispensável à ocorrência da poesia (reforço: da verdadeira poesia). Porque MF sabe, de ciência certa, o que é a verdadeira poesia, assim como sabe o que é a verdadeira crítica. Fátima Maldonado serve, no seu texto, como exemplo e sobretudo como pretexto para mais uma vez separar águas. De um lado, tudo aquilo por que Vida Extenuada está: «além do olhar clínico, aquele timbre rugoso e inconfundível», a «seca mas feroz capacidade de denunciar»; do outro, «o circo literário deste pequeno mundo», o «esterco lírico comum». Resumamos: do lado bom, a verdadeira poesia, a que corresponde a verdadeira crítica, que não é muito mais, diga-se, do que um efeito gramatical em torno de verbos, nomes e adjectivos tremendistas: denunciar, circo, esterco, feroz.

Do outro lado, rigorosamente «nos antípodas», está, por todo o «esterco lírico comum», o «’poema puro, limpo / do lixo das coisas banais’ que há pouco tempo reclamava um dos mais consagrados e traduzidos poetas lusitanos». Chegamos, com estas palavras, ao grau zero da ética crítica. Porque o poeta em causa tem nome e chama-se Nuno Júdice e os versos citados ocorrem no poema, de título «Poética», que abre o recente A Matéria do Poema. Não sei se a crítica não pode ou não deve nunca ser jocosa. Ocorrem-me parágrafos de Harold Bloom sobre Eliot ou Pound que seguramente não são um primor de conduta moral, ainda que, reconheça-se, sejam argumentados, o que é mais do que ocorre com MF, para quem a volúpia da «denúncia» quase sempre dispensa os enfados da argumentação. Mas não me lembro de Bloom alguma vez sonegar o nome aos poetas, críticos ou teóricos que visa (e menos ainda a Eliot ou Pound); e sobretudo nunca o vi confundir a crítica com o baixo moralismo de quem, de dedo espetado, denuncia, enojado, o circo ou o esterco do mundo (tome-se a aproximação entre Harold Bloom e MF como um caso de pedagogia pelo contraste).

Como no Adorno da Filosofia da Nova Música, tudo em MF se passa como se se necessitasse a todo o instante de dispor de um lado um Schönberg, «ou o progresso», e do outro um Stravinsky, «ou a reacção». Nuno Júdice, neste quadro, está eternamente condenado, já que desde o seu primeiro livro é claro que o seu paradigma é o eclectismo inclusivo de Stravinsky, o recuo voluntário ao moderno e ao mais próximo pré-moderno enquanto caricatura de si mesmos e alegoria benjaminiana de uma memória excessiva e só recuperável enquanto ruína e melancolia. Mas este funcionamento «reactivo» permitiu-lhe escrever cinco ou seis livros iniciais memoráveis, além de alguns outros posteriores, o que é argumento empírico bastante para a denúncia ser substituída pela leitura atenta. O problema é que este quadro, na revisão que dele produziu Joaquim Manuel Magalhães (JMM), sofreu uma aparente inversão, pela qual a reacção, caucionada por um agon antimoderno assaz simplista, se tornou não só o pólo positivo da díade como ainda, apesar do antimodernismo, ganhou um perfil estranhamente schönberguiano no seu ascetismo, mesmo se agora paradoxalmente «realista»: «retornar ao real» significou rasurar a pulsão simbolista ou metafórica, bem como toda a tradição visionária, da poesia na modernidade, numa revisio que nos deu um sub-imagismo inspirado numa pobre versão do antimoderno inglês mais à mão: Larkin, claro. Como era inevitável, os discípulos endureceram a lição do mestre; e a «reacção», para lá de estética tornou-se uma moral e uma política em que não é difícil reconhecer uma hipóstase, já assaz póstuma, da negatividade adorniana. Póstuma e errónea, já que convém não esquecer que em Adorno a negatividade pode incluir gente como Stefan George – e, sintomaticamente, não inclui Brecht -, pela razão de que a resistência da mónada artística à reificação não é questão de denúncias do esterco do mundo, mas sim da opacidade (que pode ocorrer numa poesia tão formalista como a de George) segregada pela frágil película formal que envolve externamente a mónada. Confundir isto com a «doutrina» que é possível recensear nas palavras de MF é cair na reificação maior da ilusão neo-realista, segundo a qual a negatividade é função de coisas tão peremptórias, e narcisicamente reconfortantes, como a rejeição do «esterco lírico comum». Um Adorno arrepiar-se-ia com o primarismo destas posições, que há demasiado tempo são entre nós lidas prima facie na sua putativa bondade emancipatória – quando são só um reaccionarismo estético, caucionado por um suposto radicalismo político.

Mas sobretudo, as palavras de MF são-me insuportáveis pelo enfático moralismo que este crítico «sem qualidades» não se cansa de debitar sobre o resto do mundo. A genealogia é facilmente reconhecível: de Jorge de Sena a JMM e a MF, estamos perante poetas e críticos cooptados por uma Kulturkritik cujo suposto radicalismo pressupõe uma extraterritorialidade absoluta do sujeito crítico. Numa versão pitoresca, que remonta ao precedente queirosiano de todos eles, trata-se de denunciar o esterco do mundo (o «reino da estupidez», as hordas que invadem a Praia da Consolação, o circo literário) enquanto se arregaça as calças o suficiente para que a enxurrada passe e nos não conspurque; numa versão mais filosófica, trata-se, agora como sempre, de falar «a partir de lugar nenhum», esse lugar geométrico da virtude ao alcance de muito poucos. O que sempre me surpreende em MF, como no JMM que assinava, e não sei se o continua a fazer, uma crónica mensal no Actual, na edição patrocinada pelo BCP Millenium, é que este «lugar nenhum» a partir do qual se denuncia o circo literário e o «esterco lírico comum» coincida com o periódico mais institucional e de maior circulação do país… Eu diria que há algo de problemático em denunciar nesse lugar «um dos mais consagrados e traduzidos poetas lusitanos» – a não ser que um módico de senso político e cultural nos leve a admitir que não tem de haver uma contradição necessária entre arte e instituições. A história da arte contemporânea, em quase todos os domínios – e, antes dela, a história dessa criatura moderna que é o Museu -, aí está para o demonstrar (quem apoia financeiramente os filmes de Pedro Costa? ou os de Straub? e diminui isso o radicalismo das suas propostas?). Pretender o contrário, fazer da poesia, na sua pobreza material de papel e caneta e edições comercialmente clandestinas, um organon da crítica universal do capital e da sua reprodução, não é só o bónus maior que se pode conceder ao sistema (que, assim ou assado, já economiza muito com a poesia), como é uma forma de cegueira empírica face ao pluralismo de soluções que o Artworld oferece – e, desde logo, de auto-cegueira, como se vê neste suposto radicalismo caucionado pela Impresa. E, voltando à denúncia de «um dos mais consagrados e traduzidos poetas lusitanos», onde começa a fronteira do politicamente aceitável? É aceitável que Herberto Helder esteja traduzido em Espanha e França e editado no Brasil? Ou o ideal seria que um poeta tivesse só uns poemas soltos traduzidos numa revista de baixa tiragem, ou apenas um esquecido volume numa editora marginal estrangeira? Nunca a Gallimard ou a Einaudi ou a Faber, em todo o caso… Ou a Faber sim, por causa de Eliot, mas não as outras?… E, quanto a consagração, qual o limiar? Um Prémio do Pen ou da Fundação Luís Miguel Nava, nunca o da APE? Ou uma aceitação «crítica» segundo o modelo do espectáculo encenado há anos por JMM em Mateus? Convinha que MF nos esclarecesse sobre isto. Porque, mais uma vez, quem tanto grita não parece estar à altura do radicalismo da Grande Recusa de um Herberto Helder, por exemplo. Posso ter as minhas dúvidas sobre a produtividade da posição do autor de A Colher na Boca, que inteiramente respeito, como respeito todas as tentativas de produção de uma marginalidade não moralista nem dogmática, que se me afiguram tão mais essenciais num tempo em que, como alguém disse, abunda a teoria crítica e não existe qualquer crítica efectiva do que existe; não as tenho porém sobre a coerência de quem percebeu que ao retirar-se para o «poema contínuo» se condenava ao silêncio público, e mesmo aí não sem dificuldades e uma ou outra hesitação.

Concluo: nada nos autoriza a supor que uma poética como a de Fátima Maldonado (lamento ter de a usar, por razões de argumentação, como MF, i.e., como uma «autora representativa», o que é sempre o pior dano que se pode causar a uma obra) é mais radical, estética e politicamente, do que uma outra centrada na exaltação do «poema puro, limpo / do lixo das coisas banais»; o alcance propriamente político dos textos, a sua resistência à reificação, não é função de Diktat prévio e menos ainda da sua recusa do belo ou das qualidades intransitivas assignadas pela tradição kantiana ao estético; supor o contrário é entrar numa deriva hegeliana pela qual certas formas do poético são declaradas mais consonantes com o Espírito Absoluto, qual ele ressoa ainda nos subterrâneos, do que outras (e, claro, coloca a questão irredutível de saber qual o Hegel disponível para o declarar – apesar de, como é público, MF há muito ter apresentado a sua candidatura); a alternativa radical entre consagração e recusa é não só prática e politicamente insustentável como sobretudo estéril: não temos remédio senão ajuizar criticamente caso a caso; a herança mais pesada da nossa Kulturkritik tardo-moderna é o moralismo e o reaccionarismo social, travestido de radicalismo político (pessoalmente, congratulo-me pelo facto de haver hoje muito mais portugueses com acesso à Praia da Consolação do que no tempo em que Ruy Belo por lá andava, ainda que a paisagem se tenha estragado: o resto vem com o tempo e a educação pelo exemplo cívico e democrático); o destino de posições adornianas como a que recenseei, se não o de todas as posições adornianas, na sua confusão do filosófico com o doutrinário, é o dogmatismo, que define este e quase todos os textos críticos de MF; a «crítica apaixonada» é parte de um sistema romântico que desconfia da «segunda mão» (ou da terceira) em nome de uma intimidade com a origem sem a qual não haveria nem poesia nem crítica: muito ao invés, a poesia, como a crítica, são o reino da segunda, terceira e quarta mãos, pelo que a crítica apaixonada, como se vê de forma exuberante em MF, é quase sempre uma denominação aberrante para outra coisa; ao contrário do que pretende MF, extremando campos e colocando de um lado os «verdadeiros» poetas e do outro os «falsos», e ao contrário de uma máxima infeliz e infelizmente popular, a poesia não é só uma. Graças a Deus, seria caso para dizer.

Osvaldo Manuel Silvestre

Advertisements

Comentários Desativados em Da crítica dogmática

%d bloggers like this: