Os Livros Ardem Mal

Dolores de Rubén

Posted in Comentários by Miguel Cardina on Sexta-feira, 20-06-2008


A 14 de Setembro de 1942, Rubén caía morto em Estalinegrado. Ruben era Rubén Ruiz Ibárruri, filho de Dolores Ibárruri, la Pasionaria, figura cimeira do Partido Comunista Espanhol (PCE) e presença recorrente no panteão mitográfico comunista do século XX.

O sacrifício de Rubén Ibárruri valeu-lhe ser condecorado, postumamente, pelas autoridades político-militares da ex-União Soviética. Em Espanha, o seu nome disseminou-se por toda uma nova geração de bebés anti-franquistas. Deste modo se prolongava o exemplo do combatente morto na luta contra o fascismo e o nazismo, o mesmo inimigo que agora dominava uma Espanha varada a estilete. Ao mesmo tempo – imagem importante no catolicismo mediterrânico – a multiplicação do nome permitia sacralizar a dor de uma mãe que ofereceu o filho ao braço longo da História. O filho-herói tornava Dolores num símbolo da capacidade ontológica de triunfar sob a adversidade.

Nos anos quarenta, uma série de poemas de intelectuais comunistas espanhóis ajudaram a moldar esta imagem de claras ressonâncias religiosas. Jorge Semprún recorda que se ocupou durante anos de um nunca acabado Canto a Dolores Ibárruri que esperava terminar desta forma: «Se abrió la puerta. Nos alzamos / De nuestras sillas. Fuiste estrechando manos, / sonreías. / Y entonces estalló la primavera.» Mais arrebatado, Rafael Alberti, sob o pseudónimo de Juan Panadero, chamou-lhe «encarnação das manhãs» e «guia clarividente do povo», outorgando a Dolores uma santidade claramente mariana: «madre buena, madre fuerte / madre que para la vida / le diste un hijo a la muerte».

Quando, na sequência da crítica de Krutchev ao estalinismo, se começou a fazer o levantamento dos casos de «culto da personalidade» nos diferentes partidos comunistas, a Pasionaria aparecia como um dos exemplos mais apontados. Se Estaline era o «pai dos povos» Dolores era a mãe. A mãe órfã, carregando no seu luto as mágoas de um povo agrilhoado. A mulher dignamente revoltada pelo ventre, lugar da mais íntima das verdades. E no meio dela, Rubén, produzindo pela ausência a reprodução dos filhos do povo.

Miguel Cardina

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