Os Livros Ardem Mal

Um café curto, sff!

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 18-06-2008

É mensal, vai no nº 3 e pode-se ler enquanto se toma Um café, que aliás é como se chama. Da capa ao verso, que a numeração gulosamente inclui, são só 20 pp., pelo que é uma leitura digestiva. As capas, já agora, como aliás o grafismo, são assinadas por Carlos Paes e são magníficas, assim como o logo da publicação. Como é patrocinada por uma marca de café, é gratuita. É claro que – e entramos agora nos handicaps – sendo um produto genuinamente tripeiro (uma variante actual do infelizmente arqueológico cimbalino), o resto do país e do mundo está privado do acesso a este café. Por outro lado, e como se diz no editorial do nº 2 (exemplo do que deve ser um editorial, se descontarmos, claro, os de José Manuel Fernandes no Público), «A edição de Março da nossa revista superou todas as expectativas. Um café, por favor!, foi a frase mais repetida pelos portugueses, logo a seguir a Um café e um bagaço, por favor!»

A alma mater de Um café é obviamente Tomás Magalhães Carneiro, editor e, íamos jurar, desmultiplicador de heterónimos: Rupert Tempest, William No… Como não disponho do nº 1, destaco, do nº 2, a atenção dada a dois colectivos multidiciplinares: a «Sorry Art», ou seja, Inês Gama e Maria Sottomayor, que fazem intervenção pública por meio de posters em tamanho grande e numa estratégia para-conceptual que sabota o código da linguagem publicitária; e a «F.R.E.I.M.A.», um colectivo mais virado para som & web design que, nas palavras do Freimen Hugo Branco, «Além de festas de arromba, adultérios ariscos de aparthotel e golpes de Estado em pequenos países da América Latina [se dedicam] à produção de música electrónica, DJing e VJing, sonoplastia, edição de audio, cinema, vídeo, design de comunicação, web design, artes digitais e pensamento crítico». Uff! Que mais pedir? O nº 3 dá destaque a um texto do editor sobre a «Kakânia. Uma viagem espiritual à Viena de 1900», aproveitando o facto de, com a recente edição de O Homem sem Qualidades, as grandes obras que definiram esse «alegre apocalipse», estarem enfim disponíveis entre nós. Há ainda secções fixas, pré-publicações, autores «do Porto para o mundo».

Um café parece fazer sistema e sentido com a crise dos média em papel e o advento da estranha figura dos «gratuitos», também ela sistémica com o devir-gratuito dos conteúdos em formato digital, ao mesmo tempo que se cruza com a tradição contemporânea dos guias urbanos do tipo Time Out. A diferença reside talvez na forma como aqui se sintoniza o lado artisticamente trendy com o capitalismo e comércio «popular» na figura do café. Mas ainda aí, na mistura desse lado trendy com secções como «Filósofos de tasca» ou roteiros do Puârto, reconhecemos as singularidades da formação sócio-cultural da capital nortenha, a esse título única no país, e muito manifesta no carácter realmente interclassista e intergeracional dessa grande instituição da cidade que é o café. Até porque cafés a sério já só os há no Porto.

Folheando Um café, tem-se às vezes a sensação de que este micro-colectivo está apenas a aquecer os motores, não se sabe bem para quê. Por outro lado, está muito bem assim. Dêem-nos um café destes de vez em quando e o mundo não fará mais sentido – mas fará mais mundo, apesar de tudo.

Osvaldo Manuel Silvestre

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