Os Livros Ardem Mal

Boa Noite, Senhor Pessoa

Posted in Autores, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 13-06-2008


Proponho um excerto de Boa Noite, Senhor Soares, de Mário Cláudio (MC). António da Silva Felício, que em jovem fora empregado do escritório da Rua dos Douradores em que Bernardo Soares desempenhou tarefas de tradutor e não apenas, já idoso, ao adormecer, é visitado pelo espectro do Senhor Soares:

E é então que principio a resvalar em definitivo para o sono, quando a claridade me entra já pelas frinchas da persiana, e o senhor Soares se dirige a um país muito distante que no meu torpor se chama «Mar Português». Atrás dele segue uma fosca multidão, e a primeira individualidade que nela distingo é aquele famoso doutor Reis, marchando muito erecto, e com um livro aberto na mão direita, e um lápis em riste na mão esquerda, e que vai contando as sílabas de um verso, ou dividindo as orações de uma estrofe. E logo depois desloca-se um ser muito especial, do qual em breve fornecerei detalhada notícia, de monóculo, traçando uma perna sobre a outra, ao caminhar, tal e qual como fazem as putas de luxo, e fixando com magnética intensidade o olhar no olhar de quanto moço de trolha se cruza com ele. Desfilam por fim diversas figuras inidentificáveis, precipitando-se para o crepúsculo do Tejo com uma pressa no limite da cabriola. E quando cada uma delas retira a máscara de cera, e volta para mim a cabeça, é o rosto do senhor Soares que reconheço, tão lívido e solitário nos óculos e bigode que um espasmo me arrepanha as tripas, e me sento estremunhado na cama desfeita. (pp. 57-58)

Descontando a demonstração de domínio da arte da prosa, em que Mário Cláudio por demasiadas vezes se compraz, o que temos aqui é um compacto dos lugares-comuns do tratamento romanesco da ficção-Pessoa nas últimas três décadas: (i) a «fosca multidão» que segue Soares, Soares que páginas antes fora, de modo muito congruente com essa multidão, descrito como «uma ausência, ou […] um homem que por ser todos os homens atravessasse a existência como homem nenhum» (p. 48); (ii) Ricardo Reis, digamos, d’après Almada ou em versão animada do desenho daquele; (iii) Álvaro de Campos d’après o Cesariny de O Virgem Negra e da, hoje muito popular, revisão gay; (iv) a «máscara de cera» que esconde o rosto de Soares, que é muito nitidamente o rosto de Pessoa, ou não fosse ele apenas meio heterónimo, sob todos os outros. Ou seja, e resumindo, mais daquele mesmo com que os ficcionistas contemporâneos julgam enfrentar a ficção-Pessoa: fantasmas, ausências, ou o preenchimento delas com coisas como sexo, episódios domésticos & literatura da literatura (Pessoa faz com que todos os pós-modernos se tornem de súbito modernos e com que todos os modernos se revelem afinal pós-modernos). E nem a caução que MC parece procurar na «espiral das representações» – as máscaras pessoanas da lavra do próprio ou obra daqueles que, depois de Pessoa, um pouco por todas as artes, lhas (não) foram colando à pele – faz da novela (assim o livro se classifica na capa, embora na folha de rosto se diga antes «romance»…) mais do que uma ocorrência daquela figura, viral e banal, do simulacro, em que este funciona dentro do princípio da remissão enciclopédica: um simulacro remete para outro, este para outro, e por aí fora, todos eles reconhecíveis, todos eles domesticados e domésticos na nossa imaginação pessoana, todos eles tropos do tropo maior que deveria ser a Literatura (a que Pessoa preferia chamar Sonho) mas que aqui é só uma forma de comprazimento na constatação da ubiquidade do Sr. Pessoa, esse fantasminha brincalhão a quem se deve toda uma pujante literatura derivativa.

O romance do Sr. Pessoa, lamento dizê-lo, não parece ganhar nada de realmente relevante com a novela do Sr. Soares. Aguardemos, pois, o próximo derrotado pela ficção-Pessoa.

Mário Cláudio (2008). Boa Noite, Senhor Pessoa. Lisboa: D. Quixote, 96 pp. [978-972-20-3632-0]

Osvaldo Manuel Silvestre

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