Os Livros Ardem Mal

O desassossego dos brindes

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Sábado, 07-06-2008

Fui comprar o último livro de Mário Cláudio, Boa Noite, Senhor Soares. Supunha eu, na minha inocência de leitor, que um livro é um livro. Ou melhor: que 1 livro é 1 livro. Mas não: 1 livro, aprendi eu, pode ser 2 livros. Explico-me: o livro vem envolto em plástico, com um autocolante que nos informa de que o pacote «Inclui oferta da peça de teatro inédita Medeia». Ou seja, compra-se o livro, que é fininho e, virando-se o objecto, do outro lado está um outro livrinho, este com o título Medeia.

Ora, eu tenho aqui um problema, que confesso sem problemas: comprei o livro não por ele ser de Mário Cláudio mas por ser sobre Bernardo Soares. Interessam-me, digamos assim, as ficções sobre esse português improvável que foi Pessoa, talvez porque todas me fazem por sistema concluir que a ficção pessoana é intraduzível; e que nessa matéria a ficção tem ficado quase sempre bem abaixo da crítica, ou pelo menos daquela que consegue reinventar Pessoa. De Mário Cláudio já li o bastante para ter uma ideia arrumada da obra e para perceber que ela está hoje mais ou menos nos termos em que ficará arrumada na nossa literatura; e ainda para perceber que o seu momento mais estimulante foi a trilogia Amadeo, Guilhermina e Rosa, de 1984 a 1988.

E agora, em vez de um livro tenho dois, sendo o segundo, ainda por cima, uma Medeia! Dirão alguns que só tenho de ficar agradecido por este brinde. Vejo-me forçado a discordar. Com a saturação de brindes que o mercado hoje nos oferece – e basta, para isso, ir até ao quiosque comprar o jornal -, o verdadeiro brinde é o que consiste em não nos oferecerem nada para lá do que compramos, tanto mais que, convenhamos, não há tempo para «consumir» tanto brinde. Depois, tenho dificuldade em aceitar que uma Medeia possa ser brinde, a não ser em regime de humor negro… Finalmente, se estes 2 livrinhos custam 10,01 €, e se eu só queria Boa Noite, Senhor Soares, como consumidor parecer-me-ia mais curial que a D. Quixote permitisse que os cidadãos na minha situação adquirissem apenas essa novela, talvez por 6 €, o que é preço mais que aceitável para um livrinho desta dimensão. Sobretudo, parece-me dispensável que se chame a isto «oferta», quando nitidamente o preço, apesar das aparências em contrário, não é, de facto, de amigo. Enfim, graças de um mercado em que nada é de graça.

E quanto ao livro em si? Pois, não sei. Tenho estado bloqueado, desde que o(s) comprei, sem saber por qual começar: se pelo Soares, se pela Medeia. É o desassossego dos brindes…

Osvaldo Manuel Silvestre

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