Os Livros Ardem Mal

Maio de 68 em Ítaca

Posted in Autores, Crítica, Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 05-06-2008

«maio de 68» é seguramente um dos poemas mais dispensáveis da obra, em geral não dispensável, de Vasco Graça Moura (VGM). O poema condensa tudo o que há de mais problemático na poética e na persona do Autor, sempre que esta é introjectada no poema, coisa que aliás acontece com grande frequência, para o bem e para o mal (embora esse mal ocorra sobretudo nos romances). Como não me vou alongar, passo a um elenco dos problemas: (i) A motivação do título resume-se a pouco mais de 3 versos (os iniciais), que remetem título e «mensagem» do poema para o domínio menor da provocação ideológica – bem denunciada no «tempo / feito de equívocos» dos versos 2-3 -, mais do que para qualquer tentativa de propor uma «versão alternativa do evento e seu culto». Tudo o resto tem tanto a ver com aquela data, ou seja, Maio de 68 em Alfama, como qualquer evento teria com aqueles mesmos 3 versos a abrir. Ou seja, não se sente a necessidade interior do texto, e sente-se em excesso o seu carácter gratuito (não quero dizer «fútil», pois o fútil pode ser e é quase sempre motivado ou, se se preferir, necessário, ainda que com frequência ao serviço de uma ontologia derivativa); (ii) Na aparência, o poema é uma ocorrência mais da poética circunstancial de VGM: um episódio popular em Alfama, cuja lição político-filosófica residiria justamente na superioridade («crítica») do particular histórico sobre o mítico. A verde árvore da vida, uma vez mais, desbancaria a cinzenta cristalização da teoria ou, pior ainda, da ideologia. O problema reside, porém, (iii) na deriva incontinente de VGM para o território da biblioteca, fazendo do episódio a enésima variação, aliás não memorável, sobre Ulisses e Penélope. Como é manifesto, a subrogação de Luísa por Penélope e do marinheiro por Ulisses derroga o intento crítico subjacente à opção por uma cena situada em Alfama, essa suposta alternativa crítica, porque periférica e «operária», ao meio universitário afluente da Paris de Maio de 68. O culturalismo do poeta esvazia esses putativos seres populares e concretos, atraiçoando título, personagens e intencionada instância crítica, ainda que em modalidade ressalvada pela ironia desta cena entre uma Luísa que apanhava malhas em meias (eis a nota marxista neste revisionismo do tear de Penélope…) e um marinheiro grego.

O maior problema do poema reside pois no programa crítico que a sua própria natureza culturalista arruina, uma vez que não se trata sequer de gerar, no casal improvável, um universal concreto que estaria antes e depois e para lá de todos os Maios. O que esta revisitação da Odisseia arrasta é antes uma passagem drástica do concreto ao abstracto, do histórico ao retórico, enfim, do político – plano em que Alfama poderia talvez combater, via luta de classes, Paris em Maio de 68 – ao puramente ideológico. De facto, VGM responde ao prestígio político do Maio de 68 com o prestígio da cultura clássica e com a ideologia dos «clássicos», como se cometesse a Ítaca, e não tanto a Alfama, a tarefa de funcionar como instância crítica do Quartier Latin… Ou seja, entramos naquele regime de equipolência em que Alfama pode ser Ítaca e em que tudo pode ser traduzido para grego, o que equivale a dizer que tudo é esvaziado da sua mundanidade irrepetível. Ficam-nos as quadras, que poderiam dar fado, e assim fazer-nos regressar à Alfama de que o poema tão depressa nos afasta, e fica-nos a competência técnica e retórica do poeta. Mas não nos fica nada a que possamos chamar «Maio de 68 em Alfama», porque este Maio de 68 é sem tempo e lugar. Mora, em rigor, na estante, e não na da minha biblioteca mas sim na de Alexandria, para sempre imobilizado sob o peso do mito.

Osvaldo Manuel Silvestre

Advertisements

Comentários Desativados em Maio de 68 em Ítaca

%d bloggers like this: