Os Livros Ardem Mal

Um bem necessário

Posted in Comentários by Sandra Guerreiro Dias on Sábado, 31-05-2008

Contra o excesso, não o sendo, a Revista Criatura assoma enquanto projecto urgente e desmedido que é na asserção pela palavra que não se esgota no exercício estético. Já com dois números editados, trata-se de uma publicação literária organizada pelo Núcleo Autónomo Calíope, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que recolhe a colaboração de jovens autores emergentes. Despretensiosa, discreta, e incessante na beleza e eminência dos pressupostos que convoca, esta revista afirma-se pela coerência de uma arquitectura a assentar na experiência da poesia enquanto desafio. Dizendo-se pela criação, pela criatura em movimento, assume-se, além disso, contra a globalização, normalização e, logo, neutralização da natureza primordial da linguagem artística. Vigilante, actua assim em prol da sujeição a um desígnio que, em constante processo de assombro disfórico, propende para o esclarecimento do real, ultrapassando em muito o mero jogo poético experimental ou o vulgar ensaio reprodutor de tendências. E se é verdade que «toda a criação é afinal um bem desnecessário», como é afirmado em nota introdutória ao segundo número, não o deixa de ser menos que é a palavra, aqui enquanto sinopse desse processo de criação, que se assume neste contexto enquanto objecto que cumpre o esboço de uma espécie de avassaladora catarse geracional. A Revista Criatura é assim, e também, a diegese dessa «geração do silêncio» em si mesma, a que é simultaneamente filha «daqueles que lutaram no dia 25 de Abril», e “geração revoltada/simplesmente porque não tem a sua revolução». Projecto que se declara pela indigente necessidade do silêncio, empreende-se pela concretização desse reduto último ou dessa «ciência última» que Herberto Hélder, há vinte anos atrás, anunciava e sintetizava como «unânime, fundamental, áurea».

Sandra Guerreiro Dias

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