Os Livros Ardem Mal

O francês e o direito do consumidor

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 26-05-2008

De cada vez que passam 10 anos sobre Maio de 68, é inevitável o balanço: «Que reste-t-il?» Desta vez, o que mais me tem impressionado, de entre aquilo que se esvaiu nesta última década, é a total e flagrante ignorância no que toca ao domínio do francês.

Apercebi-me primeiro disso no Câmara Clara dedicado ao evento. A certa altura, uma peça jornalística referia obras recentes de líderes e participantes no Maio de 68 e, fatalmente, nomes e títulos. Não só Cohn-Bendit passou a «Bandit» (prática aliás geral), numa espécie de triunfo derradeiro do gaullismo, como a jornalista que debitava o texto não conseguiu dizer um único nome ou título de obra em francês sem os ler literalmente à portuguesa, com o artigo «Un» a ser lido «Um» ou o «s» da desinência do plural a perder por sistema o seu carácter mudo, entre muitos outros mimos.

Hoje, último episódio deste festival: na RTP N assisto à notícia do filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, «Entre les murs». Mais uma vez, lido à portuguesa, sem temor nem tremor.

OK, a cultura francesa já não governa o mundo, o que justifica o ror de tolices que, a pretexto disso, vamos ouvindo, nos mais variados quadrantes (estético, intelectual, político, etc.) e tantas vezes por uma estranha espécie de despeito (o que pode ir de João Carlos Espada a José Manuel Fernandes e a uma série de jovens turcos). Mas não consigo deixar de me lembrar de uma frase que, algures em Sinais de Fogo, uma personagem do sobrevalorizado romance de Jorge de Sena lança, como comentário a um francófilo de então: «Todos os cretinos dizem frases em francês!». Hoje podíamos certamente reescrever a frase, não para pôr o inglês no lugar do francês – a cretinice do gesto seria idêntica à de quem se entusiasma com denúncias como a dessa personagem de Sena – mas sim para referir a pacífica incompetência de todo o mundo no que toca ao francês. O espantoso nisto, em tempo de união europeia e hysteresis comunicacional, traduzida de resto em cursos de comunicação e jornalismo a que acorrem hordas de jovens, é a constatação de que os nossos jornalistas de TV e rádio não só não sabem francês como também continuam a confundir o espanhol com o portunhol, julgam quase todos que o italiano é um português cantado e, claro, não têm a menor ideia do alemão para lá de Siemens ou Volkswagen – o que significa que se pode ser jornalista em Portugal dominando apenas 10% do International English.

O resto, ou seja, que filósofos, músicos, cineastas ou cientistas franceses sejam hoje entrevistados em Portugal em inglês, é o ar do tempo, e nada a dizer. Mas, que diabo, que saibam inglês a sério; e que, quando refiram nomes de pessoas ou títulos de obras, recorram à transcrição fonética dos dicionários. Trata-se, afinal, de uma questão de direito do consumidor. Daqueles que ainda sabem francês…

Osvaldo Manuel Silvestre

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