Os Livros Ardem Mal

O Maio de 68 de A. J. Saraiva, 38 anos depois (I)

Posted in Comentários, Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 25-05-2008

Quando, há 10 anos, escrevi, para uma evocação colectiva dos 30 anos de Maio de 68 no Ciberkiosk, um ensaio sobre Maio e a Crise da Civilização Burguesa, de António José Saraiva – o ensaio intitulou-se «Um Mar sem Margens. Paris, em Maio de 1968, no Olhar de João Cândido e nas Palavras de António José Saraiva», e foi depois recolhido no nº 2 de Zentralpark -, comecei o texto notando a estranheza de o livro de Saraiva ser, de entre todos os do seu vasto corpus, aquele que nunca conhecera reedição, após as duas primeiras de 1970, sucessivas e sem dúvida justificadas pelo escândalo provocado pela edição do volume. Significativamente, o livro viria a ser apenas reeditado em 2005, ou seja, 35 anos depois.

Há 10 anos, as referências ao livro de Saraiva na imprensa portuguesa e nos textos evocativos do evento foram ainda residuais e remetidas quase sempre para o domínio do arqueológico: teria havido uma polémica, sobretudo nas páginas de O Tempo e o Modo, entre os maoístas que então por lá abundavam e o autor, que aqueles apodaram de tudo e mais alguma coisa. 10 anos depois, a diferença da actual evocação do Maio entre nós passou muito nitidamente pelo livro de Saraiva. E porquê? Basicamente, por duas razões: 1) Pelo volume de remissões para o livro, como sendo o livro português sobre o evento (de súbito, toda a gente reconhece o valor de referência da obra e toda a gente sugere a sua leitura); 2) Porque Pacheco Pereira (PP) contribuiu para esse fenómeno, o que, no seu caso, como se pode ler por exemplo aqui, suscitou o clássico debate sobre o valor a atribuir a incandescentes afirmações do passado juvenil. De facto, no caso de PP a revalorização do livro implica uma palinódia pessoal, já que na sua contribuição para o volume colectivo editado então por Zeferino Coelho sobre o livro de Saraiva, PP rematava dizendo que se tratava de «mais um livro para ler atentamente e queimar». Não é que Sottomayor Cardia ou Sebastião Lima Rego dissessem coisas muito diferentes – mas não usavam o fatídico verbo «queimar» aplicado a livros, o que no Ocidente pós-nazi se tornou imediatamente suspeito, tão suspeito que nos bloqueia a hipótese de haver de facto muitos e muitos livros queimáveis. O problema, contudo, é que não nos cabe decidir disso, pelo que a única forma decente de «queimar» um livro é esperar que os vindouros o não leiam; mas para que isso possa ocorrer, é necessário que eles possam vir a decidir, razão pela qual necessitamos de respeitar o princípio ético de preservar todos os livros publicados. Pacheco, tipicamente, decidia – e decide agora que decidiu mal. Do meu ponto de vista, a questão acaba aqui, em sede ético-moral.

Mas não, contudo, em sede política, que é onde o livro de Saraiva nos continua a desafiar. Porque este consenso sobre o livro de Saraiva é não apenas frágil mas falso, pois o que se tem recuperado é, em menor grau, a reportagem daquele mês, e, sobretudo, a crítica, pela esquerda – mas não pela extrema-esquerda, que não era a de Saraiva, e sim pela tradição libertária que marcará o autor na sua fase tardia –, da perspectiva com que os Partidos Comunistas enfrentaram e, em boa medida, atraiçoaram, a dinâmica do movimento estudantil. Tem-se referido bem menos a crítica radical de Saraiva ao capitalismo e, mais do que isso, à Razão instrumental, que para Saraiva definia capitalismo e comunismo juntamente (posição que à época justificava reacções como a de Pacheco Pereira, nisso emblemáticas de toda uma geração) e, antes disso, todo o projecto da modernidade, que Saraiva preferia qualificar como «burguesa»: dissociação entre trabalho e capital, triunfo do espírito de «mensuração» e «contabilização», perda da relação não-instrumental com a Natureza e com o Outro. O marxismo, para Saraiva, seria ainda parte deste devir e, em rigor, a ele só se oporiam duas alternativas: (i) a do cristianismo, que «nas entranhas do seu espírito, tal como o definiram Cristo e S. Paulo, é incompatível com a mentalidade burguesa, porque contém uma semente de desmesura mística inconciliável com a contabilização da vida: uma máxima evangélica diz que quem quer poupar a vida perde-a» (cito da 1ª edição, p. 19); (ii) a da «antiquíssima cultura camponesa»: «A civilização camponesa é actualmente o único foco de resistência ao aburguesamento geral do mundo» (p. 35).

Osvaldo Manuel Silvestre

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