Os Livros Ardem Mal

O Maio de 68 de A. J. Saraiva, 38 anos depois (II)

Posted in Comentários, Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 25-05-2008

O que se celebra então na actual recuperação do livro de Saraiva? Pacheco Pereira, num daqueles momentos que o definem como criatura dos média, lembrou, contra Sarkozy, que não fora Maio de 68 e a relação daquele com Carla Bruni não seria aceitável… O problema é que se de Maio de 68 nos fica isto (os «costumes» alterados), a leitura é demasiado curta para poder recuperar o livro de Saraiva. Relembro um passo decisivo do livro. Trata-se do final de uma descrição de mais um dos longos debates na Sorbonne ao longo desse mês:

Um anarquista, muito calmo e metódico, diz que o marxismo intelectual não é subversivo, e a prova é que o Marx é estudado na Sorbonne e faz parte das matérias de exame nas Ciências Políticas. Uma moça entrar no quarto com um livro de Marx debaixo do braço não é subversivo. Subversivo é ela entrar com um amante. Subversivo é haver uma música de jazz no pátio da Sorbonne. Metodicamente, o nosso anarquista enuncia quatro atitudes subversivas e portanto revolucionárias: 1º a liberdade sexual; 2º a contemplação e a atitude mística, sem finalidade (a este propósito lembrou a perseguição da polícia aos hippies); 3º a preguiça; 4º a reclamação da mudança da situação do homem (que não mudou desde o princípio do século XIX). De tudo, foi o que mais me interessou no tempo que assisti a este debate. (p. 89)

Somemos a isto (sobretudo aos pontos 2 e 3) a insistente denúncia da «superstição do Progresso»; ou a colocação da verdadeira revolução – a espiritual e cultural – sob a égide de figuras como S. Francisco de Assis, Gandhi ou Tolstoi. Cabe então perguntar de que celebração se trata, esta a que assistimos no corrente mês a propósito do livro de Saraiva. Porque explicar os adquiridos de Maio de 68 pela presença de Carla Bruni no Eliseu é ainda tudo reduzir à lógica da sociedade do espectáculo, o que, para Saraiva, seria mais do mesmo. O que Saraiva busca no seu livro de 1970, e o que busca, por interposto João Cândido, no Maio de 68, é o momento místico em que a linearidade da história se suspende e o sublime político irrompe, lançando-nos naquela terceira margem do rio de que falava João Guimarães Rosa (e que Saraiva traduz na expressão «um mar sem margens»). Nesse sentido, o livro de Saraiva é o mais falso dos adquiridos deste Maio de 2008, já que estes 40 anos nos afastaram vertiginosamente daquilo que em Maio de 68 parecia prometer «que a sociedade industrial moderna, tal como aparece nos países capitalistas, ia estalar» (p. 54). Sejamos justos: Pacheco Pereira, como na prática quase todos os ex-revolucionários de 60 e 70, estão hoje mais longe ainda das coordenadas do livro de Saraiva do que estavam à data da sua edição. Porque se podiam então partilhar com Saraiva a «crítica do capitalismo» (mas não os pressupostos em que repousava a crítica de Saraiva, e que o autor desenvolverá depois no período, já pós-Abril, em que será co-director de Raiz & Utopia), estão hoje maciçamente «do lado do capitalismo» ou da modernidade burguesa. Não se trata de reivindicar, fora de tempo, uma pureza filosófico-política perdida; trata-se sim de dar a ver a evidência de que o livro de Saraiva é hoje mais inassimilável ainda do que no passado, na medida em que a derrota do comunismo alargou ainda mais o espectro da crítica de Saraiva: agora, todos os que se sentiam atraiçoados por Saraiva em 1970 estão declaradamente do outro lado. O que equivale a dizer que Saraiva nos fala cada vez mais de lado nenhum.

O que isto significa, simplesmente, é que a geração que, pela voz de Pacheco Pereira, se reconcilia com o livro de Saraiva (ao fim de 38 anos, note-se – e registe-se a resistência a essa reconciliação ainda há 10 anos), se reconcilia, sim, com a sua boa consciência geracional, como quem diz: «Não devíamos ter tratado assim o homem: éramos radicais e fomos apressados e injustos». A resposta a esta (pequena) contrição moral e a esta falsa contrição política é dupla. Em primeiro lugar, convirá insistir em que, ao contrário das aparências, quem era radical era Saraiva. Pacheco Pereira, esse (e todos os que o acompanhavam) limitava-se a seguir a cartilha da grande narrativa moderna da emancipação pelo progresso, em que continua obviamente a acreditar, e se calhar agora mais do que dantes. O segundo ponto é um resumo ético-político de tudo o que tentei dizer a propósito desta recuperação, 38 anos depois, do livro de Saraiva, e para isso recorro a uma citação do livro: «A partir de agora mesmo, a história começará a ser falsificada» (p. 74).

Era fatal; e foi ainda a isso que tivemos o privilégio de assistir ao longo deste mês.

Osvaldo Manuel Silvestre

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