Os Livros Ardem Mal

Maldoror: para terminar

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 25-05-2008

 

 

 

 

 

 

Uma das questões difíceis que os últimos Mão Morta levantam tem a ver com aquilo que poderíamos descrever como o seu devir destribalizado. A questão é difícil pois os Mão Morta sempre foram um dos raros casos de acérrima tribalização, numa cultura (a nossa) cuja formação social moderna e contemporânea resistiu notoriamente à tradução social orgânica – em termos, digamos, de classe – de formas de expressão cultural. No caso do rock, isto foi sempre patente na tendência ou para a morte no berço, por insuficiente «nicho ecológico», ou para a rápida transformação em banda para toda a família (vide o caso dos Xutos & Pontapés). A excepção a este estado de coisas foram os Mão Morta e, por isso, a sua passagem a um trabalho «temático» sobre autores e livros claramente exteriores ao mundo do rock não pode deixar de surpreender, se bem que a presença da grande poesia da tradição negativa da modernidade sempre fosse reconhecível nos textos de Adolfo e, por extensão, no imaginário da banda.

Em todo o caso, esta destribalização não é sem problemas e induz necessariamente a banda a um comportamento bipolar, oscilando entre a actual fase «temática» e conceptual centrada em alguns grandes livros não-canónicos e o concerto rock puro e (muito) duro, «à Mão Morta». No fundo, é como se os Mão Morta tivessem respondido aos problemas da nossa formação social de uma forma dupla e duplamente inteligente, ou adequada: (i) na medida em que são uma banda com uma história descontínua e, de há um tempo a esta parte, organizando-se em função de projectos «globais» de média duração – CD, concerto, DVD –, não dependem das regras do mercado, que é como quem diz, não dependem de uma situação de conflito entre a tribalização pedida pelo seu ethos e a necessidade de a trocar por uma lógica abrangente, por razões de sobrevivência (a situação lembra irresistivelmente a frase famosa de Gautier sobre Flaubert, que possuiria “a inteligência de vir ao mundo com algum património, coisa absolutamente indispensável a quem deseja fazer arte“); (ii) por outro lado, a sua evolução conduziu-os a uma situação de pluralismo que mima, na sua oscilação bipolar, o pluralismo da cena contemporânea das artes e que o conflito entre corpo e verbo ou entre música e não-canto, ambos corporizados em Adolfo, tão bem traduz. Por outras palavras, os Mão Morta são hoje rock e arte contemporânea ou, se se preferir, são a performance rock como dispositivo multimédia estratégico para enfrentar algumas das questões centrais da situação contemporânea das artes performativas.

Maldoror resume-as abruptamente de várias maneiras (e digo Maldoror para dizer aqui num só nome o trabalho dos músicos, encenador, cenógrafo, figurinista, etc.), de que destaco a instabilização a que submete o nome da coisa em palco, cuja atribuição se pode fazer apenas pragmaticamente: É rock? É arte contemporânea? É, de novo, o espectro da Obra de Arte Total ou, como Wagner preferia dizer, da Obra de Arte do Futuro? Mas, se a obra de arte do futuro respondia, em Wagner, ao vazio que a modernidade instituiu no próprio coração – no animus – do corpo social, propondo um novo vínculo e uma nova organicidade, que vazio pretende Maldoror colmatar? Nenhum, obviamente. Maldoror rejeita um diagnóstico da modernidade desse teor, propondo antes uma ética do abismo e das trevas como resposta verdadeira (a única verdadeira, a única possível, a única decente) à morte de Deus. Ora, o rock nunca pretendeu coisas tão altas, ou desviadas, como uma «obra de arte total» – ou pretendeu-o pontualmente e quase sempre em momentos auto-caricaturais (embora não necessariamente: penso em Zoo TV dos U2). Pelo contrário, sempre foi, desse ponto de vista, uma forma de arte pobre mas acessível, e também por isso uma muito viável intensificação corporal do devir. Foi isso aliás que aprendemos com Adolfo ao longo de mais de duas décadas: um indivíduo que não canta e pouco se mexe pode ser uma notável reinvenção da figura do «vocalista» (não do clássico «cantor») que define, numa larga margem de indefinição, a linha da frente das bandas rock. O que surpreende talvez em Maldoror é o facto de tudo isto se transformar em dispositivo contemplável. Dir-se-á que o mesmo ocorria na obra anterior sobre Heiner Müller, com a diferença, porém, de essa obra nos propor desde o início uma revisitação fantasmática do Anjo da História, obviamente destinada a contemplação onírica. Não se esperaria contudo que tal ocorresse em Maldoror, obra que parece prometer a libertação de toda a luxúria canibal de uma banda cuja filiação em Lautréamont sempre foi nítida. E contudo é nesse momento que as coisas se imobilizam numa contemplação do espectáculo das trevas que, ao contrário das aparências (ou seja: do próprio espectáculo), nos sugere que tudo se joga numa interiorização e ascese da experiência do Grande Outro: o Mal, o Monstro, o Irrepresentável. Estranho espectáculo, pois, estranho multimédia que nos propõe esse mergulho interior que sempre acompanhou a estética do gótico, ainda para mais «monitorizado» pela palavra, uma palavra enredada em todas as suas restrições representacionais: pode ela dar a ver aquilo que o show mostra ser da ordem do irrepresentável? É aí que Maldoror gera um movimento não-dialéctico, enredado no seu não-devir, entre o que vemos e o que ouvimos, entre o que contemplamos e o pesadelo que sonhamos, cujo ponto de partida e de chegada é sempre o corpo/voz de Adolfo, como uma espécie de muro a que, cegos pelas palavras de Lautréamont, vamos sempre bater de novo.

É isto rock? É isto arte contemporânea? Seguramente, e ao mesmo tempo. Um híbrido poderoso, como antes disse, um nó cego de questões que, entre o triunfo do corpo e a sua textualização, entre as ilusões do visível e a irrupção abrupta e excessiva do sublime, entre obra material e performance, entre negatividade e catarse – entre o rock e tudo o resto -, fazem de Maldoror um dos episódios decisivos das artes performativas em Portugal neste momento.

Osvaldo Manuel Silvestre

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