Os Livros Ardem Mal

A feira, outrora agora

Posted in Comentários, Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Sexta-feira, 23-05-2008

Com todo o frenesi informativo em torno da realização, ou não, da Feira do Livro de Lisboa – em certos blogues, como o da Ler ou o Blogtailors, as notícias eram bidiárias ou mais e ora pendiam para o sim, ora para o não – aprendemos, em directo, a noção de não-evento. Alguns, digamos, os opinadores da estirpe daqueles críticos de Baudrillard que nos garantem, com um sorriso trocista, que a guerra do Golfo teve de facto lugar (até quando teremos de aturar o primarismo dos que nos ensinam que o real existe realmente, em si e por si?), dirão que, na medida em que abre no sábado, a feira será de facto um evento, para a felicidade das multidões de sempre. Por mim, prefiro insistir no que deveria ser óbvio: o único evento desta feira é o dissídio entre editores em função da chegada do corporate capitalism ao mundo da edição lusa (um episódio mais da luta de classes). O resto – ou seja, a feira em si – é um penoso anacronismo que o mercado, na sua dinâmica mais recente, veio banalizar e dissolver enquanto «excepcionalidade anual». O próprio devir das feiras do livro, cada vez mais preocupadas em investir nas novidades e menos nos fundos de catálogo, reproduzindo assim os efeitos mais perniciosos da circulação vertiginosa dos livros pelas livrarias, fez com que estas se fossem auto-anulando, pois não oferecem hoje muito mais do que qualquer Almedina ou FNAC (sendo, em contrapartida, bastante mais desconfortáveis).

Neste contexto, insistir no velho modelo e, desde logo, na uniformidade de stands e práticas, como se assim, ao menos durante o tempo da feira, «todos os editores fossem iguais» – terrível ilusão! -, não é a melhor maneira de revitalizar o evento. Entre redes livreiras, descontos em sites Web, feiras em livrarias, etc., o espaço das feiras do livro é hoje quase nenhum. Quanto ao resto, não creio que «a emoção de subir e descer o Parque Eduardo VII» chegue para sustentar um evento desta dimensão e, menos ainda, o investimento passional, e obviamente não apenas, de tantos editores. A Leya tem pois razão ao querer mudar alguma coisa na feira – mesmo se aquilo que lá quer fazer anuncie, muito provavelmente, a transformação da feira noutra coisa, destinada à glória do star system literário (ou melhor: dos romancistas que vendem).

É pena? É um mundo que desaparece? Talvez. Mas a única maneira de enfrentar um mundo em mudança é começar por aceitar. Aceitar que, como diria Carlos Drummond de Andrade, «O mundo não é o que pensamos». O mundo é o que é. E, no caso do capital, como sabemos há muito, um mundo no qual tudo o que é sólido se transforma em ar. A Feira do Livro de Lisboa é apenas a última ocorrência, modestamente pitoresca, desse fenómeno.

Osvaldo Manuel Silvestre

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