Os Livros Ardem Mal

A Produção de uma Autora (II)

Posted in Crítica by Manuel Portela on Quarta-feira, 21-05-2008

Por outro lado, os Dickinson Electronic Archives estendem ao espaço electrónico a valorização da materialidade particular dos manuscritos como parte da forma da obra de Emily Dickinson, característica da reconceptualização operada nas últimas três décadas. Procuram representar de forma mais detalhada e exaustiva os manuscritos, ligando fac-símiles digitais a transcrições diplomáticas desses manuscritos, e estas transcrições, por sua vez, a texto electrónico em XML. A ênfase é colocada na natureza manuscrita da obra, isto é, nos originais como contendo os marcadores da intencionalidade autoral nas suas várias transfigurações. Neste processo de autenticação é especialmente importante a noção de que poemas e cartas nem sempre mantêm a separação genérica habitual. Por vezes, a sua forma manuscrita não permite separá-los. Essa codificação resultou, em parte, da imposição das categorias do livro tipográfico aos manuscritos. Por isso as editoras do Arquivo se referem a esta forma como carta-poema, sublinhando a continuidade entre uma e outro.

Na medida em que não se libertam da sacralização do original, os DEA acabam por reproduzir as hierarquias de valor das instituições bibliográficas, designadamente as que convergem na própria figura do autor tal como foi analisada por Foucault, isto é, enquanto função discursiva destinada a controlar a proliferação do sentido. Parece assim haver uma contradição entre a tentativa de libertar a obra de Emily Dickinson dos constrangimentos das edições bibliográficas, dispersando-a nas diferentes versões e vestígios documentais, e, ao mesmo tempo, manter as categorias que definem a ideologia conservadora do arquivo. Tratar-se-ia, no fundo, de adoptar os mesmos princípios das edições críticas impressas, e melhorar o rigor na representação académica dos textos da autora, afirmando a sua superioridade enquanto edição na competição entre os média que define o momento tecnológico actual. Por outras palavras, a re-produção electrónica de Dickinson nos Arquivos Electrónicos Dickinson não só não põe em causa a categoria autoral como, pelo contrário, a reforça. Lena Christensen chega às seguintes conclusões:

A figura da autora, da ‘Dickinson digital’, que emerge do ambiente electrónico do DEA não é a de uma poeta radicalmente digital. A experiência de ver um manuscrito simulado digitalmente no écrã não é substancialmente diferente de ver esse manuscrito em fac-símile impresso. A ‘diferença’ entre ler um poema de Emily Dickinson num livro impresso e no DEA baseia-se no uso do espaço electrónico como substituto da monografia, da edição tipográfica e da edição fac-similar: mesmo se o DEA produz Dickinson enquanto autora num contexto, não abdica da autora, Emily Dickinson, como produtora de Writings of Emily Dickinson. Em todos estes aspectos, o arquivo é útil, mas não constitui um desafio às edições em livro, e oferece decididamente o ‘original’ como fonte da autêntica Dickinson e, desse modo, leva-nos de volta ao ‘arquivo’ da etimologia de Derrida: guardião do património cultural a ser preservado mais do que a ser radicalmente produzido. (154-155)

Christensen contextualiza o projecto dos DEA na progressiva adopção das novas tecnologias pelas instituições de investigação e na forma como as questões de acesso e de propriedade se reproduzem nos novos média sob a forma de um capitalismo informacional – uma extensão, de resto, da lógica proprietária com que instituições como a Harvard University Library e outras restringem a reprodução dos manuscritos de Emily Dickinson. A análise de Lena Christensen é interessante precisamente por confrontar a estrutura e o conteúdo do arquivo com a racionalidade teórica com que as editoras dos DEA justificaram as suas decisões. Christensen mostra o arquivo como uma construção crítica e ideológica, historicamente situada, cuja remediação do livro reproduz algumas das hierarquias de valor que se propunha refazer. Este é, com efeito, um aspecto central no modo como as edições e os arquivos electrónicos em curso organizam a migração dos textos para o espaço digital. De que forma os manuscritos ou as páginas impressas são simulados, e qual o resultado dessa virtualização na eventual reconfiguração (ou não) das categorias texto, autor e leitor? Que diferença faz a edição electrónica? Trata-se apenas de uma forma de editar textos que incorpora no novo meio as práticas características da edição bibliográfica ou, pelo contrário, transforma esse paradigma editorial com consequências para uma teorização geral dos fenómenos da textualidade?

Manuel Portela

Lena Christensen (2008). Editing Emily Dickinson: The Production of an Author. London: Routledge, 200 pp. [ISBN: 9780415955867]

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