Os Livros Ardem Mal

A Produção de uma Autora (I)

Posted in Crítica by Manuel Portela on Quarta-feira, 21-05-2008

Num certo sentido, o livro produz o autor tanto quanto o autor produz o livro. Na medida em que os livros circulam como unidades discursivas formadas pelo par título-autor, uma das suas funções é produzir a categoria autor e fazê-la circular no discurso social. O autor surge assim, dentro do sistema cultural e económico de produção de livros, como originador e proprietário da organização singular de signos que o livro codifica. No caso de autores que deixaram muitos textos em manuscrito, como Fernando Pessoa ou Emily Dickinson, a produção de identidade autoral e textual através dos seus editores [editors] é uma das manifestações dessa produção bibliográfica da autoria. ‘Fernando Pessoa’ não é apenas a designação do autor dos textos atribuídos a Fernando Pessoa ou o referente de um conjunto de narrativas biográficas. É também, em larga medida, uma construção dos seus sucessivos editores, que transcreveram e ordenaram os seus manuscritos e dactiloscritos de formas diversas, realizando intenções editoriais específicas.

Emily Dickinson é, neste aspecto, um caso elucidativo da tradução que pode ocorrer na passagem do manuscrito ao impresso. A maior parte dos seus poemas tem uma forma manuscrita, seja em fascículos organizados por si própria, seja em cartas, seja ainda em fragmentos dispersos. A edição fac-similada dos manuscritos, organizada por R.W. Franklin [The Manuscript Books of Emily Dickinson, Belknap Press of Harvard University Press, 1980] revelou até que ponto as edições tipográficas anteriores tinham normalizado aspectos significativos da espacialização e da pontuação dos poemas de acordo com as convenções tipográficas. Além disso, este novo olhar para os manuscritos permitiu reconhecer na materialidade caligráfica dos fascículos, das cartas e dos fragmentos uma poética do manuscrito. A visualidade do traço e dos espaços podia ser lida como parte do processo material que se manifestava verbalmente através das quebras sintácticas e das atracções fónicas. O ritmo suspenso e sincopado dos versos de Emily Dickinson parece não poder ser pensado sem esse ritmo da escrita da mão sobre o papel. A fisicalidade da sua linguagem depende da presença dos movimentos da mão na letra do poema, e do fascículo manuscrito como código bibliográfico.

Em Editing Emily Dickinson: The Production of an Author, Lena Christensen analisa o modo como a autora ‘Emily Dickinson’ tem sido produzida pelas decisões editoriais que, desde os finais do século XIX, codificaram linguística e bibliograficamente a sua obra. As formas textuais específicas que os manuscritos tomam na sua circulação impressa reflectem as convenções da materialidade tipográfica, e a racionalidade editorial que, em cada momento, determinou a sua transcrição, organização e anotação. Nesta produção editorial da autora, são analisados os momentos iniciais, através da edição de Martha Dickinson Bianchi e Alfred Leete Hampson (1924); a canonização, através da edição crítica de Thomas H. Johnson (1955); a revalorização dos manuscritos, através da edição fac-similada de R. W. Franklin (1980) e, por último, a nova edição digital (em curso desde 1995) nos Dickinson Electronic Archives, da responsabilidade de Martha Nell Smith, Lara Vetter, Ellen Louise Hart e Marta Werner.

Christensen encontra dois princípios determinantes na estruturação e apresentação dos materiais dos Arquivos Electrónicos Dickinson. Por um lado, a intenção editorial de recontextualizar os poemas no conjunto documental de onde foram extraídos. Esta recontextualização é feita no conjunto de fascículos encadernados por Emily Dickinson, na correspondência dirigida a vários interlocutores, nos fragmentos sem qualquer organização definida, e em algumas publicações periódicas. Desta contextualização, os Arquivos Electrónicos Dickinson destacam as interacções manifestas na correspondência com a sua cunhada, Susan Dickinson. A colaboração entre Emily e Susan Dickinson está documentada pelo menos na escrita e revisão do poema «Safe in their Alabaster Chambers». A intenção de socializar a actividade autoral justifica a inclusão dos textos e da correspondência de Susan Dickinson e de Edward Dickinson como parte do arquivo, construindo uma imagem que desfaz o mito da autora solitária, devolvendo-a ao quotidiano familiar e social.

Manuel Portela

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