Os Livros Ardem Mal

Pietà perversa

Posted in Crítica, Notas by Pedro Serra on Sábado, 17-05-2008

Esta nota é uma achega à genial formulação de um “Franco como cyborg” na leitura de Francisco Larubia-Prado, ensaio originalmente publicado no jornal on line Ciberkiosk e entretanto editado no Journal of Spanish Cultural Studies (2000). Na iconografia de Francisco Franco destaca-se a inquietante imagem final da agonia de um ditador prostrado numa cama de hospital, entubado, encordoado a máquinas que lhe prolongam artificialmente a respiração vital. Temos, assim, um “Franco como cyborg“, sintagma que nos devolve um corpo-máquina, significante maior  de uma ditadura que perfez o aggiornamento científico-técnico responsável pelo desenvolvimentismo sessentista da sociedade espanhola, factor determinante no ulterior processo transicional. Um emblema retomado, recentemente, por Teresa M. Vilarós, no texto “Banalidad y biopolítica” (2005), o que nos devolve a valência de um potente ícone cuja poética e cuja política instiga a leitura. Ainda assim, não é possível deixar de assinalar o silêncio da ensaísta em relação ao texto já mencionado de Larubia-Prado, com o qual simplesmente não dialoga. No amplo comentário ecfrástico que Vilarós leva a cabo a partir da célebre fotografia publicada em La Revista do jornal El Mundo, nos idos de 1984, a ensaísta destaca precisamente: “De forma perversamente poética a política torna-se poesia no corpo-cyborg do ditador”. O ensaio, se incide num primeiro compasso sobre a imagem de Franco-cyborg, acaba entretanto por propor uma nova imagem forte, um novo emblema, um novo ícone: o do banho de Fraga Iribarne em Palomares, após o conhecido acidente nuclear ocorrido em 1966. Enfim, este segundo ícone será uma espécie de repetição paródica daquilo que no primeiro é modulado sub specie trágica.

Do meu ponto de vista, o argumento da ensaísta supõe um desforço por encontrar uma nova imagética poético-política que, retroactivamente, relê a década de sessenta – fulcral para o posterior processo transicional – em função já não da sobrevivência do franquismo – enquanto macro-aparato disciplinador, moderno (o ensaio segue Foucault), mas em função do embrionário desenvolvimento de uma “biopolítica” que cruza, sem sobressaltos, os tempos do tardofranquismo e a democracia. A Espanha do Turismo e do Tijolo – i.e., do crescimento imobiliário que acaba de se esgotar (um novo “T” perfila a imaginação do futuro: a Tecnologia) -, a Espanha pós-moderna, pós-política, neo-imperial e neo-liberal, em tempos do capitalismo globalizado, como vai argumentando Vilarós, é melhor representada pela fotografia do banho de Fraga, ministro do Turismo, e do embaixador norte-americano, Duke. De algum modo, a eleição da nova imagem funciona no contexto actual “revisionista”, no âmbito da chamada “segunda Transição”.

Sem dúvida a fotografia publicada em 1984 no suplemento La Revista expõe a imbricação e esbatimento do binómio homem/máquina numa cyber-ditadura, num cyber-ditador. Na ala ocidental da península, também Salazar terá sido híbrido que integra o humano e o maquínico, o sujeito e a tecnologia (low tech) da Escrita/Voz, em demanda de um irrealizável – Portugal sujeito transcendental de uma destinação providencialista, corpo místico determinado por uma missão histórica -, dínamo transformador de consciências que funciona ininterruptamente e ad aeternum, líbido canalizada numa auto-satisfação solitária. Em clave alegórica, no Dinossauro Excelentíssimo (1972) de José Cardoso Pires diz-se-nos dessa voz impostada na escrita e tecnologias que exponencialmente a potenciaram: gravação, telex, telégrafo, satélite, jornais, rádio, televisão… o scriptorium do professor/imperador é um “altifalante”:

Continuava a discursar – mas em privado, no gabinete. A voz escrita e gravada seguia direitinha aos continentes universais através das agências telexe e do telégrafo traço-ponto; entrava em órbita, perdurava já distante das leis da terra como um eco… eecooo… Logo pela manhã o Imperador encontrava-a reproduzida nos jornais, e era admirável no fraseado e no subentenda-se, o pensamento a desdobrar-se. A rádio e a televisão transmitiam-na entre marchas invencíveise compassos de procissão, um-dois, esquerda-direita, laus Deo; o altifalante do gabinete despejava-a continuamente.

De momento, R.I.P. ao Imperador, retomo a inconografia de Franco, ensaiando, nesta breve nota, a análise de um aspecto não contemplado por Vilarós ou Larubia-Prado em relação à fotografia de “La agonía de Franco”. Há um punctum na fotografia publicada em La revista em 1984 que não entra na reflexão proposta em “Banalidad y biopolítica”: refiro-me à figura da enfermeira que, situada no ângulo esquerdo da imagem do ponto de vista do observado, se confunde com o décor maquínico. Não lhe vemos o rosto, duplicando-se assim a invisibilidade. Rosto que significa muito nessa sua colocação “fora” do enquadramento, nessa sua ausência que deixa o rasto do ausente. E todavia, se reintegrarmos esse corpo feminino incompleto, des-figurado, ao conjunto pictórico, vislumbramos, paulatinamente, uma enigmática e sem dúvida perversa Pietà. Sim, a enfermeira erguida nas suas atenções maternais assépticas e o ditador no entre-dois vida/morte, configuram uma outra cena, ou melhor, suplementam o tropo do esbatimento homem/máquina que tem vindo a ser glosado. Registe-se as diferentes valências do uso poético e político do cyborg em Vilarós e Haraway. Sobrelevo, desde já, que a comparação deverá partir da seguinte base. Se, em Haraway, o cyborg é um mito pleno de potencialidades utópicas, em Vilarós, por seu turno, o que temos é o oposto: o cruzamento homem/máquina configura uma distopia. Do meu ponto de vista, o ensaio de Vilarós demoniza a máquina, certamente na esteira de uma tradição de teoria crítica muito descrente de possíveis maquínicos, descrente da mecanização de possíveis.

Na minha releitura da cena sublinho a exposição impúdica de um espaço íntimo e privado, uma óikos, um lugar doméstico em que comparece um outro binómio: homem/mulher. Suplemento, de facto, pois o tubo introduzido na boca do ditador, para além de o acordoar à máquina, sugere uma conexão umbilical à enfermeira. “La agonia de Franco” publicada em La Revista do jornal El Mundo em 1984: Pietà perversa, sacroprofana, desfigurando-se: a enfermeira, dir-se-ia, quer sair ‘daquela’ cena. A célebre fotografia impõe-nos pois um regresso, uma revisitação, que dê conta de uma tensão: recuperando para a cena pictórica a figura feminina, é como se a fotografia nos representasse não apenas a comparência do cyborg, mas também a resistência ao cyborg. Reinscrevedo na cena a questão do sexo/género, como que recuamos um pouco no salto pós-género [“post-gender”] que um cyborg simboliza, como articulou Donna J. Haraway. Verifica-se uma continuidade equívoca entre a enfermeira e a máquina, o que sem dúvida reedita a contiguidade “moderna” entre o elemento femenino e o maquínico. Na Modernidade, a ergonomização da Máquina é um processo fundamentalmente erótico.

Em todo o caso, um resto de Natureza nesta Pietà perversa que é “La agonía de Franco”, talvez já só o seu cadáver posposto, a casca oca de um mito de origens, a facies hippocratica do seu regime de dominação. Neste corpo ditatorial aberrante, também comparece a questão do sexo/género. Para a imagem de Franco agonizante, pós-humano, valerá por último a seguinte questão formulada por Haraway: “Cyborg ‘sex’ restores some of the lovely replicative baroque of ferns and invertebrates (such nice organic prophylactics against heterosexism). Cyborg replication is uncoupled from organic reproduction”. Novo input, ainda que, penso, não perdemos a conexão argumentativa: o input de uma teratologia peninsular, ícone do corpo místico imperial peninsular pré-moderno, pré-democrático e da contumaz cronotopologia “barroca” em declinação ibérica.

Pedro Serra

Francisco Larubia-Prado (2000), “Franco as cyborg: The body re-formed by politics: part flesh, part machina”, Journal of Spanish Cultural Studies, v. 1, n. 2.

Teresa M. Vilarós (2005), “Banalidad y biopolítica”, Arteleku 4.0.

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