Os Livros Ardem Mal

Contra Arcadia

Posted in Comentários, Notas by Pedro Serra on Terça-feira, 13-05-2008

Num ensaio atómico dedicado ao género pastoril, “The Despised Pastoral”, H. P. Lovecraft (1890-1937) proporciona-nos um frestão por onde adentrar-nos no seu universo ficcional. Recordo muito brevemente o argumento, apostado em contraditar a desvalorização do género de Teócrito e Virgílio, com interregnos de revitalização em Spencer ou Pope. Lovecraft posiciona-se claramente contra uma pulsão estruturalmente “realista” da poiesis, da invenção moderna, e o seu imperativo de “reprodução da Natureza”. Contra esta pulsão, menciona a figura de Poe – um dos seus mais decisivos influxos -, mestre de uma poética jogada, claramente, no “prazer e não na verdade”. Uma argumentação certamente ajustada ao esteticismo finissecular, não anda longe dos termos de um Oscar Wilde e o seu The Decay of Lying, publicado nos inícios da década de noventa do século XIX. Compare-se, por exemplo, a seguinte sequência final de “A Sombra sobre Innsmouth”, o regresso em tropel das hordas intra-mundanas que conduzem à loucura do protagonista, com o passo do diálogo de Wilde que também transcrevo:

Será realmente possível que este planeta tenha engendrado tais criaturas, e que olhos humanos tenham visto a verdade, em carne e osso, tenham visto aquilo que o género humano não conheceu até agora senão em febris devaneios e lendas pouco convincentes? § E contudo, vi as criaturas em interminável oleada – batendo as asas, dando saltos, grunhindo, gemendo – que surgia inumanamente através do espectral luar numa sarabanda grotesca e maligna de fantástico pesadelo.

Eis o retrato wildeano, por seu turno, da fantasia que sobrevirá à “narrativa moderna” de pendor realista:

O próprio aspecto do mundo mudará diante dos nossos olhos estupefactos. Do mar surgirão Behemot e Leviatã, e navegarão à volta das galeras de alta popa, como nos deliciosos mapas daquelas épocas em que os livros de geografia eram ainda legíveis. Vagarão os dragões pelos ermos e a ave fénix elevar-se-á no ar do seu ninho de fogo. Acariciaremos o basilisco e veremos a jóia na cabeça do sapo.

A prospecção bucólica de Wilde, diríamos europeia, contrasta com a de Lovecraft, que muito embora nos propõe a dessublimação da tradição pastoril americana, sempre cara a sublimar quer a Natureza quer a Tecnologia. Lembremos, a este respeito, e como mero apontamento, a conhecida injunção de Ralph Waldo Emerson, para quem “Nature and Technology agree well”. Lovecraft, de facto, será neste aspecto mais “europeu”, em quanto mais “tecnófobo”. Seja como for, o que Lovecraft sobrelevará da tradição pastoril inglesa é o facto de ela encerrar uma potentíssima máquina de produção de sonhos e mitos, somando-lhe, ao contrário do que aponta o trecho de Wilde, a pervivência de um baixo-contínuo gótico. Assim, a língua rústica, dirá, é “irresistível”: “A magia deste tipo de poesia é, para toda e qualquer mente imparcial, irresistível, capaz de evocar melhor uma série deliciosa, plácida e refrescante de retratos na imaginação do que aquela que podemos obter em formas mais realistas. Toda a fantasia não contaminada engendra visões ideais, de que a composição pastoril constitui um reflexo legítimo e artisticamente necessário”. Todavia, a irresistibilidade do sermo rusticus assume, em Lovecraft, a modulação de uma prosa berradora.

O sonho radical seria o “refúgio luminoso”, a possibilidade de fuga das “feias trivialidades da vida”. Na verdade, o onírico é tanto um mundo de beleza, de “velhos jardins e florestas encantadas”, de “bosques úmbrios”, como também um espaço de senectude absoluta que infunde por igual “deslumbramento” e “horror e decepção”. A língua rústica assimila-se a um berro que visa detonar o medo. Recolho escassos lapsos descritivos desse mundo de beleza no conto “Ex oblivione”, publicado em Março de 1921 em The United Amateur. Fábula que leio pela tradução da ficção completa de H. P. Lovecraft editada por e Juan Antonio Molina Foix (Francisco Torres Oliver, José María Nebreda, para além do editor, traduziram), dois volumes que acabam de ser publicados pela editora Valdemar. Destaco as duas excelentes introduções de Molina Foix, faltando nelas apenas o entrosamento dos textos ficcionais com os ensaios críticos de Lovecraft, muito embora  o editor sim tenha em conta alguns lugares da vasta epistolografia. O protagonista do conto, imerso num estado de letargia sonolenta, encontra na cidade de Zakarion um antigo papiro amarelecido onde lê a existência de um lugar situado mais além do “vale e dos bosques úmbrios”. O acesso a essa paisagem escusa é feito mediante uma “droga”. Cito extensamente, de modo a destacar o devaneio desse espaço obscuro:

Ontem à noite tomei [a droga] e, no sono que me provocou, percorri flutuando o vale e os bosques úmbrios. E ao chegar, nesta oportunidade, ao muro antigo, vi que a pequena porta de bronze estava entreaberta. Do outro lado chegava um esplendor que iluminava espectralmente as árvores gigantescas e retorcidas, os telhados dos templos sepultados; continuei, deslocando-me musicalmente, aspirando às glórias do país de que nunca regressaria. § Mas, no momento em que a porta se abriu um pouco mais, e o feitiço da droga e do sonho me empurraram a cruzá-la, soube que todas as glórias e visões tinham terminado; porque nesse novo reino não havia nem terra nem mar, apenas o branco vazio do espaço ilimitado e deserto.

A visão do incógnito conduz ao “horror cósmico”, não propriamente o medo de um terror esperado, mas o “horror” como reacção a uma ameaça que se desconhece mas que esteve sempre aí, latente, expectante, figurada em seres hibernantes que regressarão para reclamar o seu imperium: a Grande Raça, os Primigénios, os Fungos de Yuggoth, os Venusianos, o Povo de Innsmouth, entre outros. Todos eles regurgitam uma Natureza informe, uma matéria mutante que, em última instância, povoa um “branco vazio”, um “espaço ilimitado e deserto”. No ano de “The Despised Pastoral” – o ensaio foi publicado em Julho de 1918 – Lovecraft escreve também “At the Root”. Ambos os textos são claramente uma reacção ao espectáculo bélico que se vive, ao zunido dos aviões letais, ao tracejamento sibilante dos bombardeios. Lovecraft, neste sentido, advoga por uma poética de “pura imaginação” perante o miserável teatro humano da Grande Guerra. Autêntico manifesto anti-humanista, em “At the Root” o universal da guerra conduz à total descrença na perfectibilidade do ser humano:

Há que ser conscientes da selvajaria intrínseca e essencial do animal a que chamamos homem, e regressar a princípios mais antigos e sólidos de vida e defesa nacionais. Devemos reconhecer que a natureza do homem permanecerá a mesma enquanto for homem; a civilização é apenas um ligeiro cobertor, debaixo do qual a fera dominante dorme com sono leve, sempre pronta a acordar. Para preservar a civilização devemos lidar cientificamente com o elemento feroz, utilizando apenas princípios biológicos genuínos. Quando nos tomamos em consideração, pensamos demasiado em ética, em sociologia, e demasiado pouco em simples história natural. Devíamos observar que o período de existência histórica do homem, um período tão breve que a sua constituição física não foi ainda minimamente alterada, é insuficiente para permitir uma qualquer mudança mental considerável. Os instintos que governaram os antigos Egípcios e Assírios, também nos governam a nós. E tal como os antigos pensaram, tomaram, lutaram e enganaram, também nós, modernos, continuamos a pensar, tomar, lutar e enganar nos nossos mais recônditos corações. A evolução é apenas superficial e aparente.

Toda a mudança progressiva é acidental; todo o humano é subsumido pelo peso da biologia; a história humana, mínima, é insignificante, vivemos na realidade ainda num insciente estado pré-histórico que o universo ficcional lovecraftiano aparenta fazer retornar com todo o seu horror. O tempo post bellum não poderá obviar a verdade material absoluta, uma verdade que não reserva qualquer lugar à “liberdade” humana – uma “liberdade”, de facto, em que Lovecraft não acredita: “O factor último das decisões humanas é a força física. Devemos aprender isto, por muito repugnante que a ideia possa parecer, se queremos proteger-nos a nós e às nossas instituições. Confiar noutra coisa qualquer é falacioso e conduz à ruína”. Total mobilização militar, pois, como resposta à subsunção do homem à ciência, à “verdade científica”, a única verdade. Um horizonte “repugnante”, sim, mas que vai ao encontro de um homem sem história, sem futuro de redenção: imperfeição que continuará a ser imperfeição.

O desterro dos deuses amorfos, dos Primigénios, nos abismos oceânicos, nos desertos da Antártida o nos secretos e insondáveis bosques de Nova Inglaterra, são coextensivos da topografia fictícia de Nueva Inglaterra: Dunwich, Arkham – onde se encontra a sede da Universidade de Miskatonic – ou Innsmouth. Coextensividade que, de um ponto de vista político-social, se objectiva num agonismo apocalíptico também continuado: a guerra é a expressão natural do homem. Na mundivisão lovecraftiana, a política do medo é a única com capacidade de produzir uma homeostase da beligerância de “todos contra todos”, como lemos ainda no ensaio “At the Root”: “Produzirá [a política do medo], pelo menos, uma estabilidade aproximada das condições sociais e políticas, e previne a ameaça do mundo inteiro pela cobiça de cada uma das partes que o constituem.” É neste sentido que o ser humano é desprezível, debilmente contido por uma periclitante ordem leviatanesca.

De um lado, pois, uma imaginação pastoril; do outro, e no mesmo lance, a sua total derrogação. Esta tensão – a obra lovecraftiana constrói-se sobre estes termos esticando-os a um máximo paroxístico – esvazia uma antropologia optimista, que paradoxalmente teve no género pastoril um travejamento discursivo de longa duração. O remate abrupto do conto “Ex oblivione” repõe, nessa evidência de um “novo reino [em que] não havia nem terra nem mar, apenas o branco vazio do espaço ilimitado e deserto”, a Contra Arcadia. Na temporalidade sugada do universo contra-arcádico lovecraftiano não há história, não há hora humana, apenas a sobreposição geológica de strata colapsados numa epifania momentânea e fóbica que abarca o mais arcaico e o mais contemporâneo. A terribilitá do mito; o sendeiro luminoso do narcótico nos frios intermundios de um universo habitado por seres desasados, ergo muito necessitados da aviação.

Pedro Serra

H. P. Lovecraft (2005/2007). Narrativa completa, 2 vols., ed. Juan Antonio Molina Foix. Madrid: Valdemar. 832 pp. (vol. I) e 960 pp. (vol. II). ISBN: 84-7702-529-0 (vol. I) e 97884-7702-587-0 (vol. II).

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