Os Livros Ardem Mal

Aproveitando o embalo do «Maio» (I)

Posted in Comentários, Recensões by Miguel Cardina on Segunda-feira, 28-04-2008

Os quarenta anos do «Maio de 68», que aí se aproximam, são uma óptima oportunidade para questionar o legado desse tempo e passar em revista alguns contributos sobre os «quentes anos sessenta». Aparentemente, o campo editorial português ainda não descobriu esse filão e são pouquíssimas as obras de autores estrangeiros sobre o período. Se é provável que apareça com alguma rapidez a tradução de Forget 68, de Daniel Cohn-Bendit, a disponibilização em português de obras como The Year of the Barricades, de David Caute, ou 1968. The Year that Rocked the World, de Mark Kurlansky, seriam porventura mais úteis para se compreender a explosão contestatária ocorrida nesse «ano-metáfora».

Esta última obra segue o percurso da erupção abundante de tumultos ocorridos durante esse ano de 1968, momento histórico marcado por um difuso «desejo de rebelião, uma sensação de recusa da ordem estabelecida, e um profundo desagrado perante todas as formas de autoritarismo» (p.17). Às revoltas estudantis, tema incontornável dos discursos sobre este período, Kurlansky dedica uma parte significativa do texto. Polónia, França, México, Checoslováquia e Estados Unidos da América são, neste particular, os territórios analisados. Não há, contudo, a intenção de ler ’68 tendo apenas como referência aquilo que nos recintos universitários ia sucedendo. Ao invés, Kurlansky procura efectuar um desenho das mudanças ocorridas nesse «momento de assombrosa modernidade» e de «ingenuidade quase pitoresca» (p.19) que, nos mais variados domínios rejeitava um mundo autoritário, herdado das cinzas da II Guerra Mundial.

É a realidade americana que serve de modelo de abordagem, ocupando, aliás, mais de metade dos capítulos. Se isto pode parecer, à primeira vista, uma fraqueza do texto, por outro, o desenho do clima político-geracional que atravessa este território permite dar conta de uma série de fenómenos que não deixaram de ter impacto noutros países. De facto, uma das razões da coincidência cronológica da rebeldia está precisamente na existência de uma cultura juvenil, partilhada por faixas crescentes das juventudes urbanas escolarizadas em diferentes latitudes, uma boa parte dela proveniente dos Estados Unidos da América, e que era agora difundida a larga escala pelos meios de comunicação de massa. Foi, aliás, precisamente em 1968 que o sociólogo canadiano Marshall McLuhan criou a expressão «aldeia global» para designar essa nova realidade.

A partir da edição espanhola: Mark Kurlansky (2005), 1968. El año que conmocionó al mundo. Tradução de Patrícia Antón. Barcelona: Destino. 557 pp. [ISBN: 84-233-3706-5]

Miguel Cardina

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