Os Livros Ardem Mal

Poetas

Posted in Comentários by A. Apolinário Lourenço on Terça-feira, 22-04-2008

Dez anos depois de um inquérito semelhante, o Jornal de Letras n.º 979, de 9 de Abril, dedicou o seu espaço nobre ao estabelecimento de uma espécie de ranking de obras e de escritores nacionais e estrangeiros, constituído a partir de listas de preferências elaboradas por 45 personalidades da vida cultural portuguesa.

Para Carlos Reis, um dos críticos convidados a comentar a escolha, diferença mais notória entre o ranking de 1998 e o actual foi o desaparecimento de várias obras e autores clássicos, que foram substituídos, em 2008, por contemporâneos.

Cingindo-me apenas aos autores nacionais escolhidos, verifica-se que Fernando Pessoa (e heterónimos) esmaga a concorrência quanto ao número de menções (45, seguindo-se Eça de Queirós, com 27, e Lobo Antunes, com 23. Os dois livros mais votados foram o Livro do Desassossego (do semi-heterónimo Bernardo Soares) e as Poesias de Álvaro de Campos, enquanto Os Maias, que surgem em terceiro lugar, são a primeira obra não pessoana da lista. Ao todo, são 40 os autores que aparecem no ranking do JL, correspondendo aos escritores com pelo menos 3 menções, dos quais apenas Camões, Vieira e Fernão Mendes Pinto são anteriores ao século XIX.

Observando a lista, à procura de omissões que possam parecer escandalosas, apercebo-me da ausência Miguel Torga. Deveria figurar? A avaliar pela grandiosidade das recentes comemorações do centenário do seu nascimento, pelos congressos internacionais dedicados à sua obra e até pelos muitos livros que lhe foram ultimamente dedicados, é, de facto, estranha a sua ausência. Mas a verdade é que os intelectuais seleccionados pelo JL não votaram nele, preferiram escritores a que não são consagrados grandes Congressos Internacionais, e que nalguns casos raramente se vêem nas prateleiras das livrarias (Fiama, Rodrigues Miguéis, Luísa Neto Jorge, Maria Gabriela Llansol, por exemplo).

A situação não é, de resto, inédita. Vem-me à memória o escândalo público motivado pela não-inclusão de qualquer poema de Torga na antologia Século de Ouro, cujo critério de elaboração foi idêntico ao do JL: a consulta de personalidades pertencentes ao campo literário. Culparam-se então os organizadores, e os deputados eleitos por Coimbra (de todos os partidos) tomaram inclusivamente uma posição pública de protesto e desagravo, rejeitando a exclusão de Torga, Manuel Alegre e Afonso Duarte (todos novamente excluídos).

Confirma-se, portanto, que Miguel Torga, por muito popular que seja, não é um autor que encante a actual geração de críticos, romancistas e poetas. O JL evidentemente (e muito bem) não subverteu a escolha dos seus convidados, como também não o fizeram (e igualmente muito bem) os organizadores do Século de Ouro.

António Apolinário Lourenço

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