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A Invenção da Informação (IV)

Posted in Crítica by Manuel Portela on Terça-feira, 22-04-2008

No terceiro momento de produção da informação como ideologia, o virtual é definido como telos da presença mediada digitalmente, enquanto espaço histórico e social colectivo. Esta idealização é exemplificada através do conceito de virtual nas obras de Pierre Lévy (Que’est-ce que le virtuel?, 1995, e L’intelligence collective, 1995). Ronald E. Day encontra no tropo da rede e da conectividade técnica, hiperbolizados na obra de Lévy, um tropo para o todo da organização social e para um futuro em que a existência surge mediada por tecnologias de representação. A imagem do cérebro colectivo ou virtual depende da constituição da linguagem e dos eventos enquanto trocas reguladas de identidades subjectivas estandardizadas e de objectos identificáveis: «a ‘aura’ do objecto informacional esconde a face oculta da sua produção e da sua força social produtiva» (79). Recodificadas como determinantes do futuro, as tecnologias da informação e da comunicação são produzidas enquanto representações do espaço social que instituem uma determinada ordem social. A ubiquidade desta representação como representação do futuro da humanidade tornou invisível a sua função ideológica de naturalização da estandardização do espaço social. Um espaço construído pela construção estética do conhecimento através de técnicas de representação.

No contexto de estabelecimento da cultura de massas na década de 1930, o autor assinala a presença de uma visão alternativa da linguagem, do pensamento e da sociedade, que não assenta na crença na representação unitária ou na transmissão sistémica. Recorde-se que as tecnologias de informação e de comunicação desempenham já na década de 30 uma importante função no controlo, vigilância e perseguição totalitária, assim como na mobilização de vastos espaços sociais para a guerra. Da percepção de que a reprodução técnica da cultura condiciona os processos de organização e engenharia social surge a pergunta sobre o significado da reprodutibilidade técnica. No período em que a teoria moderna da documentação e a ciência da informação estão em construção, Martin Heidegger e Walter Benjamin criticam a reificação do conhecimento e a fetichização da informação por meio da organização técnica. As reflexões de Heidegger e Benjamim revelam a consciência da emergência da forma específica de conhecimento público designada como “informação” e dos processos modernos de “comunicação” num momento anterior à naturalização dessas formas como modos de conhecimento e de linguagem durante a segunda metade do século XX. Encontramos nos seus textos uma visão filosófica e historiográfica não-positivista da informação na modernidade.

Em “Die Zeit des Weltbildes” [“A Era da Imagem do Mundo”], de 1938, e nas obras posteriores de crítica da metafísica da tecnologia, Heidegger critica a noção de conhecimento como representação, na medida em que essa identificação oblitera a interpretação e a natureza situada do ser no espaço e no tempo. A visão técnica informacional assenta na crença de que o ser humano pode representar todos os seres e todas as suas relações, um prolongamento da tradição metafísica da representação. Heidegger vê a ciência moderna e a tecnologia maquínica como formas específicas da metafísica da modernidade: «Para Heidegger, a essência da investigação moderna consiste numa projecção (reissen: traçar, esboçar, desenhar) dos seres fora de uma totalidade fenomenológica e na presentificação desses seres como entidades empíricas dentro de uma estrutura ou sistema de conhecimento (isto é, enquanto uma espécie particular de ave ou planta, comportamentos particulares, tipos particulares de pessoas, etc.)» (96). Isto significa que, para a ciência moderna, a re-presentação de seres e de eventos só pode ocorrer de acordo com a lógica cultural da ciência, e para efeitos de gestão e de uso. Este modo de experiência humana do mundo presentifica-se através da mediação da reprodução técnica: a visão do mundo no ecrã privado (imaginada por Otlet como forma do conhecimento universal) é uma imagem da distanciação estética em que assenta o entendimento do mundo como representação:

Neste modo de produção, o homem luta pela posição em que pode ser aquele ser particular que determina as medidas e define as regras para tudo o que é. Na medida em que esta posição garante, organiza, e se articula como uma visão do mundo, a relação moderna com aquilo que é, é uma relação que se torna, no seu desenrolar decisivo, uma confrontação entre visões do mundo; e, na verdade, não de visões do mundo aleatórias, mas apenas daquelas que, tendo tomado já a posição fundamental do homem, sejam as mais extremas, e o tenham feito com a determinação mais absoluta. Para esta luta entre visões do mundo, e de acordo com o seu significado, o homem faz-se valer do seu poder ilimitado de cálculo, planeamento e modelação de todas as coisas. A ciência como investigação é uma necessidade absoluta para este modo de estabelecimento do sujeito no mundo; é um dos caminhos através dos quais a voracidade da idade moderna se dispõe a realizar a sua essência, com uma velocidade desconhecida de todos os participantes. (Heidegger, 1938; citado por Day: 98-99).

Manuel Portela

Ronald E. Day (2008), The Modern Invention of Information: Discourse, History, and Power. Carbondale and Edwardsville: Southern Illinois University Press [1ª ed. 2001], 140 pp. [ISBN 0-8093-2847-X]

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