Os Livros Ardem Mal

A Invenção da Informação (I)

Posted in Crítica by Manuel Portela on Terça-feira, 22-04-2008

Em The Modern Invention of Information, Ronald E. Day faz uma história da produção social da informação e da sociedade da informação. A “era da informação”, tropo descritivo do momento actual, é analisada como elemento nas transformações ideológicas que legitimam as formas contemporâneas de produção do sujeito e de controlo social através das tecnologias da informação. A história desse tropo, que se tornou dominante em múltiplas formações discursivas (científicas, políticas, económicas, financeiras, educativas, sociais), pode ser traçada a partir dos discursos técnicos e profissionais que, ao longo do século XX, contribuíram para a construção do significado social da informação e da comunicação. Mais do que mera descrição, “era da informação” seria um tropo futurológico, cuja retórica, reproduzindo-se em diferentes domínios culturais, condiciona o desenvolvimento das sociedades segundo determinado modelo tecnológico. O poder metafórico e metonímico do livro como agente desse futuro global da sociedade do conhecimento, prolongado depois no computador, determinou o significado social das tecnologias da informação e da comunicação.

Ronald E. Day identifica três momentos discursivos na produção da “era da informação”: a teoria documentalista europeia que se desenvolveu no período anterior e posterior à Segunda Guerra Mundial; a teoria da informação e a cibernética, que se desenvolveram nos Estados Unidos da América no contexto da Guerra Fria, imediatamente a seguir à Segunda Guerra Mundial; e a chamada “era virtual”, que caracteriza a actualidade. Para Ronald E. Day, a emergência e disseminação da ideologia da informação reflecte estruturas específicas de poder e serve, em particular, o desenvolvimento da ciência na modernidade. A história da produção do conceito de informação constitui por isso um lugar privilegiado para observar a intersecção entre linguagem e economia política. Trata-se de um poderoso agente no desenvolvimento de formas de organização social globais, que dependem da organização e transmissão de informação e da produção de sujeitos adequados a esse regime informacional.

O primeiro momento, exemplificado através das obras de Paul Otlet e de Suzanne Briet, consistiu na expansão do significado social e da importância da documentação e da informação. A emergência da ciência da informação é já um sinal da reificação moderna da informação. Enquanto técnica essencial ao desenvolvimento das ciências que se constrói, ela própria, como meta-ciência, a ciência da informação legitima-se através dessa relação mimética e metonímica com a ciência que procura representar. Paul Otlet, em Traité de documentation (1934), conceptualiza o livro (biblion) como motor da expansão universal do conhecimento. Simultaneamente organismo e materialização dinâmica de energia, os livros constituiriam redes, internas e externas, na relação que estabelecem entre si e com o mundo. O conhecimento seria o resultado dessa interacção gerativa e evolucionária de repetição e amplificação materializada nas relações internas entre os livros, agregados em colecções globais ou universais. Paul Otlet imaginou, ainda antes de Vannevar Bush (cujo artigo sobre o Memex data de 1945), uma possibilidade de integração documental (comparável às redes electrónicas actuais) que colocaria no ecrã individual de cada leitor o acesso ao conhecimento universal. [cf. Françoise Levie (2007). L’homme qui voulait classer le monde. Bruxelles: Les Impressions Nouvelles. ISBN 2-87449-022-9]

Manuel Portela

Ronald E. Day (2008), The Modern Invention of Information: Discourse, History, and Power. Carbondale and Edwardsville: Southern Illinois University Press [1ª ed. 2001], 140 pp. [ISBN 0-8093-2847-X]

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