Os Livros Ardem Mal

Maldoror: uma adenda

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Terça-feira, 15-04-2008

Um ponto que, percebo agora, ficou por abordar: a precedência da palavra registada no Livro, que o espectáculo traduz na precedência do guião. Estes últimos Mão Morta (os que se dedicam a Debord, Müller e Lautréamont) tanto trabalham sobre a precedência da palavra como, mais ainda, sobre a figura do Livro, razoavelmente «sagrado», se o posso dizer em sede contracultural: A Sociedade do Espectáculo, os Cantos de Maldoror. Os espectáculos tornam-se assim, parafraseando Lou Reed, talking books, cujas páginas Adolfo vai virando ante os nossos olhos. Livros ilustres e cada vez mais ilustrados, num devir que culmina em Maldoror. Culminar quer aqui dizer «afundar-se», pois se em Müller é necessário dar aos poemas a forma orgânica do livro falante, e se de Debord se extrai o esqueleto de um pensamento classicamente disposto em livro, em Maldoror a figura do Livro revela-se ingovernável, já que os «Cantos» são um magma que a ortopedia do livro ilusoriamente gere, na medida em que o acantona em páginas legíveis da esquerda para a direita, de uma palavra primeira a uma derradeira. Não há porém Livro possível para este magma, pelo que não há também espectáculo que não seja uma reinvenção necessária dessa ortopedia. O que unifica pois Maldoror, à falta de um óbvio princípio dispositivo, é a figura de Adolfo/Maldoror que, qual mestre-de-cerimónias com câmara vídeo e tudo, nos conduz pela sua versão dos Cantos: uma versão não narrativa mas cumulativa, quero dizer, feita de uma acumulação de imagens factícias da Queda (uma cumulação que é, em simultâneo, e com toda a pertinência, uma ortopedia tendendo ao paralítico). Uma dessas imagens, sem dúvida a central, a do próprio rosto de Adolfo/Maldoror, distorcido pela auto-filmagem sem distância nem recuo: um auto-retrato monstruoso e verdadeiro, ou não estivesse em causa a verdade do monstro e, ainda, em perfeita sobreposição, toda a epistemologia contemporânea da imagem como reprodução e evidência.

Ou reprodução e vidência? E não será esse o verdadeiro conflito encenado em Maldoror? Um conflito desdobrável em alotropos como Livro e Vídeo, Palavra e Imagem, Fantasma e Figuração? E, no centro de tudo isto, como tradução poderosa deste nó conflitual, a voz de Adolfo que é a voz de Lautréamont que é a voz de Maldoror que é a voz de Adolfo que é a voz dos Mão Morta.

Maldoror c’est moi? Mas quem fala em mim? Adolfo? Luxúria? Canibal? Maldoror? Uma teoria de nomes para aquilo que é ferozmente sem nome.

Osvaldo Manuel Silvestre

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