Os Livros Ardem Mal

Um híbrido: Maldoror

Posted in Comentários, Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 14-04-2008

Assisti no sábado – enfim!, é caso para dizer – no Teatro Municipal de Estarreja, ao espectáculo Maldoror, dos Mão Morta. Concebido no e para o Theatro Circo (não se pode deixar de apreciar o toque fetichista do h…), de Braga, por uma equipa multidisciplinar, e aí estreado em Maio do ano passado, Maldoror é um objecto singular e estimulante, desde logo porque se integra mal em qualquer das categorias herdadas da já longa tradição da cultura rock. Basta dizer que o espectáculo é um continuum destinado a aplauso final, sem direito visível a encore – tanto mais que se vê mal como seccionar da organicidade do continuum um pedaço repetível, sem com isso questionar o notório investimento na produção desse todo. Acresce que em nenhum momento se sentiu no público o desejo ou necessidade de abandonar as excelentes cadeiras do Teatro de Estarreja para manifestações, digamos, mais fisicamente efusivas (o meu vizinho da frente protestou, por mais de uma vez, pelo facto de eu discretamente aflorar o seu assento com os joelhos em função da impulsão rítmica, aliás muito pontual, induzida pela música: foi-me difícil não pensar na distância a que estávamos da lendária destruição das cadeiras do Theatro Circo num espectáculo dos mesmos Mão Morta).

Por outras palavras: será isto ainda um rock concert? Estes fantasmas de Oitocentos são mesmo os Mão Morta? Dúvidas que aqui se levantem, não resistem porém a uma certeza: é mesmo este o universo que colamos à persona de um indivíduo auto-denominado Adolfo Luxúria Canibal, que vocifera longos excertos dos Cantos de Maldoror num trajo, e num penteado, que, como os da banda, se diria corresponderem a uma espécie de Sweeney Todd sem festa e em que o espectáculo do sangue fosse substituído, digamos, pelo dos piolhos e da abjecção da «monstruosa» personagem de Lautréamont. Num certo sentido, nunca os Mão Morta foram tanto os Mão Morta, i.e. nunca assim estiveram à altura das mitologias do mal a que Adolfo deu rosto e corpo ao longo de mais de duas décadas. Por outras palavras, e permitam-me a nota historicista, é difícil ver este espectáculo sem pensar que os Mão Morta foram criados para um dia fazerem Maldoror – e, nesse sentido, Maldoror seria o vantage point que, como em todo o historicismo, ilumina retrospectivamente e dá sentido ao que ilumina. [continua aqui >>>]

Osvaldo Manuel Silvestre

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