Os Livros Ardem Mal

Da (infeliz) relevância da literatura

Posted in Comentários, Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 07-04-2008

Tenho assistido, por intermédio do folhetim disponibilizado por Francisco J. Viegas, aos episódios da polémica desencadeada pela opinião manifestada por José Eduardo Agualusa ao jornal Angolense sobre o valor estético da obra poética de Agostinho Neto, que para o romancista não seria grande coisa. Neto, adianta Agualusa, poderá ter sido uma figura decisiva na luta pela independência, poderá mesmo ter sido «boa pessoa» – qualificação que Agualusa logo modaliza com um prudente «não sei» – mas isso não implica que tenha sido um grande poeta. E quem diz Neto diz ainda outras figuras fundadoras da ideia de Literatura Angolana e, em simultâneo, da ideia de Angola, como António Cardoso ou António Jacinto – diz Agualusa.

O que se seguiu é inteiramente esclarecedor sobre a natureza do regime de Luanda, mas por aí não há propriamente novidade. A novidade, pelos vistos, é o livre exercício do juízo estético no que toca à valia da obra poética de Neto. Juízos muito semelhantes sobre Neto, e ainda mais críticos, já os ouvi eu a vários autores africanos de relevo, ainda que quase todos «no conforto da privacidade». Embora o tópico em pauta – a poesia de Neto – nunca me tenha conseguido interessar, li essa poesia o suficiente para perceber que Neto só pode ser resgatado como «trovador» da Nação. Ele próprio, aliás, assim se define quando proclama ser aquele «por quem se espera». Há porém um oceano de diferença entre dizer Neto um poeta e dizê-lo o «trovador nacional» e essa diferença pode resumir-se assim: se o poeta é passível de juízo e dissenso (é aliás essa a condição de existência da poesia na modernidade), o segundo, que integra uma outra modernidade, a política, configurada em torno da emergência do nacionalismo, parece ser tão insusceptível de crítica quanto a própria ideia de «nação angolana», que tipicamente estaria além (ou aquém) de todos os juízos e de todos os dissensos. Digamos que o consenso sobre a precedência indiscutível da ideia de «nação angolana» é o pressuposto sobre o qual, ou a partir do qual, se poderiam manifestar divergências. Como porém Neto é esse precedente e esse pressuposto, e como Neto foi em simultâneo o Trovador e o Pai Fundador, a natureza daquele precedente e daquele pressuposto impede e bloqueia o reconhecimento de qualquer possibilidade efectiva de dissenso. Será preciso que Neto, e a ideia de «nação angolana» como pressuposto de qualquer divergência, possam tornar-se criticáveis – ou seja, será preciso que Neto morra um bocado mais, e com ele o carácter historicamente «necessário» da ideia de nação de que resultou a actual Angola – para que ambos possam vir a ser debatíveis. Desse ponto de vista, o episódio Agualusa, mais o cortejo patético de reacções suscitadas, demonstra apenas que é ainda demasiado cedo: Neto é demasiado necessário a uma certa ideia de nação – que antes de ser angolana é europeia ou latamente ocidental – para que nação e Neto possam ser já abertamente discutidos. [continua aqui >>>]

Osvaldo Manuel Silvestre

Comentários Desativados em Da (infeliz) relevância da literatura

%d bloggers like this: