Os Livros Ardem Mal

Vulcão (III)

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 31-03-2008

Klee

A secção II de Vulcão abre com «O Grito», um poema em prosa emblemático do caderno de encargos que o Nava tardio confia a esse género poético. O poema seguinte, «Um Prego», é talvez dos espécimes mais sóbrios do poema em prosa em Vulcão, pelo menos na aparência:

Um Prego

Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol que por um impressionante acidente cronológico se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.

Este prego parece ter bem pouco a ver com aqueloutro que, no poema «Bem fundo», se enterra na carne e na memória: «Um prego na gengiva / bem fundo, até onde seria / de crer que só chegasse a alma, assim // as árvores nos crescem por dentro da memória». Há quase sempre no último Nava um fulgor de reminiscência crística em imagens como a deste prego enterrado na gengiva – e, ainda, uma reencenação, por via talvez do Bacon que retoma o Inocêncio X de Velazquez, de ritos e trajos do catolicismo mais tridentino, a bem de um certo luxo, entre o kitsch e o camp, de cenários e figurinos, aliás sombrios. Penso, por exemplo, no «veludo» de «Três voltas» ou na espantosa coroação das «vísceras de deus» no mesmo poema, seguramente um dos momentos mais altos do devir anti-humanista da poética de Nava.

[continua aqui >>>]

Osvaldo Manuel Silvestre

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