Os Livros Ardem Mal

Um temor (quase) infundado

Posted in Comentários by Miguel Cardina on Quarta-feira, 26-03-2008

salazarwarhol

As primeiras leituras esconjuram receios aparentemente fundados: os quatro volumes já conhecidos de Os Anos de Salazar mostram uma colecção graficamente apelativa (deliciosas, as infografias) e com textos que vão para além da mera função de enquadramento histórico. A crer pela amostra, no final será possível dispor de um abrangente e reflexivo tratamento da época, de onde se destaca uma secção final na qual, em cada volume, se cruzam dois olhares distintos sobre um tema genérico: neste último livro, por exemplo, Fernando Martins e Alberto Pena discutem o significado do apoio de Salazar a Franco. De saudar e coleccionar, portanto. Só que uma obra não é só uma obra. É ela e a sua circunstância. E é difícil esquecer o evidente mau gosto do cartaz de propaganda, com um Salazar pop ornamentado por uma estranha frase: «nem bom, nem mau. Incontornável» (o quê? Salazar? O Estado Novo? A obra publicitada? O anúncio publicitário?). Num tempo em que é mais fácil encontrar o nome do ditador numa vitrina de livraria do que uma bíblia num templo protestante, é expediente rasteiramente sensacionalista. Algo que me fez recuperar uma frase de Baudrillard, na qual se fala da rasura da memória por uma espécie de nomeação excessiva do passado: «há duas formas de esquecimento: ou a liquidação lenta ou violenta da memória ou a sua promoção espectacular, a passagem do espaço histórico para o espaço publicitário». Felizmente, temores infundados. Se os livros forem para ler, claro.

Miguel Cardina

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