Os Livros Ardem Mal

Vulcão (I)

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 23-03-2008

vulcao

Vulcão (1994) não é, pelo que me apercebo, o livro mais querido dos apreciadores da poesia de Luís Miguel Nava (LMN). «Demasiado negro» ou «redundante» em relação a O Céu sob as Entranhas (1989), parecem-me ser as considerações mais insistentes. Em todo o caso, suponho que raros serão os que contestam a ideia de que um futuro para a poesia de LMN passará sobretudo, ou quase inevitavelmente, pelo díptico final.

Por mim, não querendo optar neste momento pela penúltima ou última colectânea, não posso deixar de dizer que Vulcão é um dos meus livros de poesia portuguesa do século XX. Na história, que está por fazer, do poema em prosa em Portugal no último meio século, Vulcão atribui a Nava um lugar obrigatório, a meu ver o mais indiscutível depois de Carlos de Oliveira e do primeiro Nuno Júdice e antes de, digamos, Luís Quintais.

À excepção da primeira secção, em que os poemas em prosa são escassos, as restantes três secções do livro são ocupadas na íntegra por poemas em prosa nos quais quase sempre LMN dá um festival de estilo: o metaliterário (por exemplo em «O grito», em que uma caneta que desliza no papel dá corpo ao grito que aquele que corre pela rua ouve, levando as mãos aos ouvidos e mimando a tela de Munch: seria difícil não sorrir, não fosse a interrogação final que, numa encenação do mais típico drama de Nava, pergunta pela língua que nos permitiria aceder enfim à realidade: «Mas em que língua isso seria?»), o humor negro, certas encenações gay (quase sempre no limite do camp), uma versão naturalmente cyberpunk do corpo e dos seus limiares ou então a FC fílmica de série B e, em geral, uma metafísica destilada, gota a gota, por um cenário de cartão pintado a negro e panejamentos tendendo ao roxo.

A tentação é grande para ler este último LMN como uma revisitação do Kafka da Metamorfose (cuja leitura suscitava o riso descontrolado do autor, como é sabido), esquecendo a sobredeterminação borgeseana e latamente metaliterária destes textos. No meu caso, que é o de quem se recusa a atribuir à morte, e sobretudo à morte súbita e dramática, qualquer tipo de privilégio hermenêutico, é-me difícil lê-los sem recordar o riso de Kafka, a função libertadora da já referida tradição moderna do humor negro e, sobretudo, a hermeneutização do moderno, ou o específico pós-moderno, em que Nava faz sentido. No meu caso, é como se visse permanentemente Nava a comentar, por meio destes poemas em prosa e sorrindo em itálico, o riso com que Kafka comenta a Metamorfose: ainda uma forma de exorcizar um muito encenado e ressalvado medo da morte.

E que outro haverá?

Osvaldo Manuel Silvestre

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