Os Livros Ardem Mal

Dia do pai

Posted in Vária by Ana Bela Almeida on Quinta-feira, 20-03-2008

MourinhoOntem, “dia do pai”, passei a tarde à procura de um presente de última hora no centro comercial. Depois de me maçar com tantos cachimbos, gravatas e camisas às riscas, acabei por ir parar à Fnac. Como muitos dos filhos que por lá se acotovelavam, procurava um livro pertencente a uma categoria específica que é a dos “livros que não são para ler”. Aliás, a Fnac deveria ter um espaço específico para os “livros para ler” e outro para os “livros que não são para ler”, de preferência divididos por uma cortina negra e espessa, para separar bem as águas. Além de que a dita cortina aumentaria o efeito de tentação para ambas as partes e bem poderíamos começar a ver fervorosos amantes de Machado de Assis a espreitarem para o outro lado, viciados em livros com posições de ioga e pilates; assim como estóicos folheadores de livros de dietas a serem iniciados nos vários volumes de Proust.

Tinha pressa, mas não foi difícil encontrar o presente ideal porque as livrarias têm mesmo muitos “livros que não são para ler” e no top ten dos livros dedicados ao “dia do pai” havia pelo menos oito nesta categoria. Ainda olhei para um catálogo dos “melhores vinhos portugueses”, e para outro que mostrava “todas as aves de caça em território português”, mas acabei na secção de desporto, quero dizer, de futebol, quero dizer, na secção de biografias do Mourinho. Estive com duas na mão, mas uma delas, a de capa dura, tinha demasiado texto, quase que era “um livro para ler”, e por isso abandonei-a. Fiquei com a outra, uma compilação de citações a partir de entrevistas ao José Mourinho, com uma mancha gráfica de tamanho generoso e abundante espaço em branco, um livro sem início nem fim, a prenda ideal. Deixo alguns excertos:

“Prefiro o quatro, três, três.” (Daily Star, 2 de Abril de 2005)

A sua resposta quando, em Telavive, lhe perguntaram se politicamente era de esquerda ou de direita. (p.78)

“Sei perfeitamente em que filme estou. Sei quem são os produtores. Sei também qual é o final da história, mas, como um dos actores principais, tenho o direito de tentar mudar esse final.” (João Almeida Moreira, Record, 17 de Novembro de 2000)

Um filme que não ficou para a história nem sequer foi candidato aos Óscares. (p.83)

É pena que, às citações de Mourinho, muitas vezes brilhantes, se siga a desnecessária mediação do compilador. Seja como for, o livro foi recebido com sucesso. Segue-se, em breve, o “Dia da Mãe”.

John Amhurst (compilador), Mourinho: Eu sou Especial – O que ele diz de si e dos outros. Adaptação portuguesa de Rui Tovar. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 2006, 219 pp. [ISBN 972-46-1664-9]

Ana Bela Almeida

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