Os Livros Ardem Mal

Manuel Portela

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 19-03-2008

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Seguramente, não faltará quem diga que este post é muito pouco ético, pois trata de um membro do blogue. Poderia defender-me dizendo que não apenas de um membro do blogue, mas também de um académico, professor (um professor muito raro, pela competência e dedicação), ensaísta, tradutor excepcional, programador, performer e poeta experimental. Em todas estas situações estou na posição de admirador e aprendiz. O facto de ser amigo de Manuel Portela só reforça a minha admiração por ele e só intensifica o gosto que sinto em declará-la.

Os jornais informam hoje que Manuel Portela se demitiu do cargo de director do Teatro Académico Gil Vicente. É uma má notícia para quem vive em Coimbra e para quem vive na e para a universidade (mas desconfio que é uma boa notícia para algumas personagens da Câmara Municipal de Coimbra). Como amigo de Manuel Portela, porém, é com alívio que recebo esta notícia. Ao longo dos últimos anos pude assistir à luta titânica e ingrata que desenvolveu para pôr de pé uma coisa tão básica para o TAGV como uma ideia de programação anual – e como o conseguiu fazer numa situação de quase penúria. Abílio Hernandez dizia, há tempos, num círculo restrito, que Manuel Portela era o melhor director que o TAGV já teve. Vindo de quem já desempenhou essas funções, e outras de maior relevo na área da gestão cultural, não se trata de elogio vão, mas antes justíssimo. O que custa, neste momento, é perceber que na própria Universidade de Coimbra há muito quem não perceba a relevância, simbólica e prática, do TAGV para a ideia de «Universidade de Coimbra», e que, em consequência, não sinta como seu um teatro que na última década, lato sensu, se tornou muito mais do que isso: um lugar com uma densidade própria, um devir de que dava gosto participar. Manuel Portela pegou nessa herança recente (pois houve tempos, não tão recuados, em que o TAGV foi apenas um sítio onde certas coisas tinham lugar) e conseguiu fazer dela um permanente desafio à nossa situação na universidade e na cidade. Suponho que é a isso que chamamos «cultura», e ia garantir que foi isso que nos levou a criar, primeiro o Escaparate e depois Os Livros Ardem Mal: colaborar num projecto cujo rosto e motor era Manuel Portela. Da minha parte, sempre entendi a colaboração com o TAGV como uma extensão da minha actividade universitária. Um dever, para ser breve. Mas não escondo que esse dever era consequência do exemplo que nos vinha de Manuel Portela.

Quando, no Verão passado, Manuel Portela organizou uma sessão no TAGV para apresentar a programação para este ano, participei no intenso debate que se gerou entre os agentes artísticos e culturais presentes, chamando a atenção para o facto de que aquela sessão assinalava uma realização impossível (António Pedro Pita, se bem me recordo, disse mais ou menos o mesmo): o facto de o director do TAGV ter conseguido montar a programação de uma época inteira com meios extremamente escassos. E que, se como universitário me alegrava com o facto, como amigo me preocupava com a constatação de que, para que isso fosse possível, Manuel Portela tinha tido de abdicar quase da sua vida pessoal, num esforço de 24 horas sobre 24 horas que não é humano, nem decente, exigir a ninguém (e é por saber isto, ou seja, por saber que o TAGV, na sua situação actual, só pode funcionar assim, que muito receio o que virá a seguir). No final da sessão, uma funcionária do TAGV veio ter comigo dizendo que me agradecia o elogio público que fizera do seu director. Que sabia que era verdade o que eu dissera, quanto ao esforço desumano exigido a Manuel Portela. Mas que, enquanto trabalhadora do TAGV, só podia rogar aos deuses que ele se mantivesse como director pelo maior período de tempo possível. E deu-me ainda exemplos da dedicação do director ao TAGV. A minha admiração pelo Manuel cresceu ainda mais, se isso é possível.

Regresso ao início: este é um post movido apenas pelo propósito ético-moral de fazer justiça (até porque prevejo que a canzoada do costume não deixará de ladrar). Este blogue, como o evento de que decorre, não existiriam, creio, se Manuel Portela não fosse o director do TAGV. Obviamente, continuaremos, pois fazer o contrário seria incompatível com a lição – universitária e cívica – que o Manuel deu ao longo destes anos. Como membro desta equipa, e como amigo, só me resta dizer: Obrigado, Manuel.

P.S. E agora que estás mais livre, vamos lá fazer algumas das coisas que tínhamos previsto para mais tarde…

Osvaldo Manuel Silvestre

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