Os Livros Ardem Mal

Os livros também se abatem

Posted in Autores by A. Apolinário Lourenço on Quinta-feira, 13-03-2008

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Quando vi a casa pela primeira vez, o que mais me chamou a atenção foi o escritório de Antieri, aquele que acabámos por deitar abaixo. A ordem e limpeza que havia ali dentro intimidavam-me. Uma estante cheia de livros forrava todas as paredes. Lombadas perfeitas, intactas, de couro bordeaux ou verde. E duas vitrinas onde guardava as suas armas, de diferentes calibres e modelos. Polidas, sem um vestígio de pó, brilhantes. Enquanto percorríamos o escritório, Juani, que tinha apenas cinco anos, aproximou-se da estante, tirou um livro, atirou-o ao chão e pôs-se em cima dele. A lombada do livro foi abaixo. Ronie agarrou-o com um puxão de cabelos. Levou-o lá para fora para o castigar sem testemunhas, estava furioso. Eu ocupei-me do livro, sacudi-lhe a marca do sapato de Juani. Tentei arranjá-lo, achei-o leve e dei-lhe a volta. Era oco. Não tinha páginas no interior, apenas as capas duras, uma caixa de falsa literatura. Li, na lombada, Fausto, de Goethe. Coloquei-o no seu lugar. Entre A Vida é Sonho, de Calderón de la Barca, e Crime e Castigo, de Dostoievsky. Todos ocos. Para a direita, havia mais dois ou três clássicos e depois repetia-se, A Vida é Sonho, Fausto, Crime e Castigo, em letras douradas de filigrana. A mesma série em todas as prateleiras.

Excerto de Claudia Piñeiro (2008). As Viúvas das Quintas-Feiras. Matosinhos: Quidnovi. 236 pp.Tradução de Artur Lopes Cardoso [ISBN: 978-989-628-004-8].

António Apolinário Lourenço

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