Os Livros Ardem Mal

F.A.P. dixit: Saudade não, nostalgia sim

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 13-03-2008

Fernando

Nunca entendi a popularidade da categoria sub-ontológica da saudade na cultura portuguesa. Deu poesia, fados e Madredeus, filosofias? E até ensaios de gente respeitável e que muito admiro, como Eduardo Lourenço? Ainda assim, nada disso justifica a hipertrofia dessa não-coisa, que aliás não consigo deixar de associar a um estado muito historicamente situado da nossa cultura e hoje apenas produtivo em versões suas de exportação – ou em ensaios editados pela Imprensa Nacional, que, vá lá saber-se porquê, decidiu há já uns anos acolher tudo isso (saudade, saudosistas, especialistas em saudade, em saudosistas e saudosismos), como se aí reconhecesse uma alta missão civilizacional.

Prefiro a versão de Fernando Assis Pacheco, que à sua maneira desobrigada é mais profunda e produtiva do que a de toda essa tralha do tardo-Oitocentos que não acaba de morrer. Transcrevo de uma entrevista do autor a Rogério Rodrigues e Torcato Sepúlveda, no Público (24/02/1991), hoje recolhida em Retratos Falados (Porto, Asa, 2001, p. 44):

Uso pouco a palavra saudade, em [favor] da palavra nostalgia. O conceito de nostalgia é muito mais dorido do que o de saudade. A saudade é bonita, dá para o Carlos do Carmo e a Amália cantarem. A nostalgia pressupõe amigos que morrem; mulheres amadas que desaparecem; filhas que crescem e já não são como eram em pequeninas; eu que já não tenho a destreza dos vinte anos, já não jogo à bola, já tenho digestões difíceis. A nostalgia não está devidamente contemplada na poesia portuguesa. À força de tentarmos fazê-la passar por uma categoria filosófica menor chamada saudade, esquecemo-nos de que o tempo foge e ninguém o agarra.

(…) Quando uma geração nasce, a outra morre. É preciso que surja uma geração capaz de sentir a felicidade, quando nós envelhecemos. A nostalgia é isso, algo que nos mantém vivos quando já sabemos que vamos morrer.

Fiquemos com a diferença que Assis Pacheco propõe com «nostalgia»: não uma versão auto-caritativa dos estragos da temporalidade, como a saudade sempre foi produzindo – para não referir a versão kitsch inscrita nas tão populares «saudades do futuro» – mas qualquer coisa da ordem do irrevogável. Não saudade, mas antes, e para propor uma tradução e tradição respeitável, ser para a morte. A nostalgia, se leio bem a sua diferença em Assis Pacheco, não é a saturação memorial e memorável do passado, como na tradição da saudade, mas antes a experiência imprescritível da perda. Nostalgia é saber o que se perdeu e, sobretudo, que se perdeu. Como no futebol se aprende, e como Assis Pacheco sabia, a pior ilusão é a de supor que alguma vez se levanta a taça.

É a essa ilusão que chamamos saudade.

Osvaldo Manuel Silvestre

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