Os Livros Ardem Mal

Crépu e as probabilidades do vício

Posted in Comentários by Sandra Guerreiro Dias on Segunda-feira, 10-03-2008

paginas desfocadas

Em resposta a George Steiner que, em O Silêncio dos Livros, alerta para a fragilidade do livro enquanto objecto físico e pensante, paradoxalmente em vias de se transformar em «factor de desumanização», Michel Crépu afirma, em Esse Vício Ainda Impune, que «quando penso em livros, nunca vejo fogueiras; vejo, sim, um rapazinho sentado ao fundo de um jardim, com um livro em cima dos joelhos. Está ali e não está» (p.53). À improbabilidade da permanência de posições definitivas acrescenta-se a formulação desse espaço quase interdito da leitura como desígnio clandestino, marginal, a prosseguir silenciosamente, espécie de «big bang invisível, muito discreto, sem consequências dignas de nota» (p.70), cujas consequências se enunciam muito para além da gravidade atávica que caracteriza a ponderação assumida por Steiner.

Na discussão implicitamente em causa acerca do lugar e do papel da leitura na complexa demagogia do devir civilizacional, Crépu, recuperando Larbaud, prefere portanto uma posição que se fundamenta na metáfora do vício impune. No entanto, e à medida que se avança no ensaio, denuncia-se o carácter improcedente desta permissão tacitamente simulada, porque afinal à mercê de um ódio incitado por uma sociedade delirante à beira do idiotismo:

esta guerra aos desacatos do vício ainda impune (…) é conduzida por um exército de patetas radiantes de estupidez e de uma ambição feroz. São os imbecis de que falava Bernanos. São infalivelmente reconhecidos pelo mau gosto, pela incapacidade de usarem com bom senso e justeza o poder de que gozam hoje em dia. É o aspecto cómico da situação… (p.69)

A aparente impunidade do vício poder-se-á, no entanto, assumir apenas como síntese das dissonantes probabilidades que nos parece interessante reter. Vejamos. Sendo que a censura ao ódio dependerá sempre de quem odeia e, mais ainda, do que é odiado e punido, e que o objecto do ódio em causa será, neste caso, a leitura e/ou o livro, a conceptualização assumida por Crépu salvaguardará sempre a distinção entre o ódio por ignorância e o ódio por esclarecimento. E é obviamente do ódio por ignorância que aqui se fala. Assim, se por um lado é verdade que se exerce a tentativa de erradicar e dissolver por completo o lugar inquestionável da leitura nas sociedades contemporâneas, não o deixa de ser menos que a mesma sociedade que odeia, nesse processo de vacilante «extermínio», subsidia a revolução pela leitura. Porque, desconhecendo, não a sabe punir. E porque, odiando, a desafia e enfurece ainda mais.

A infamante provocação é no entanto também induzida pelo objecto em si, que, enquanto ritual de iniciação ao mundo, projecto de alienação e afirmação pela experiência profunda da lucidez e da imaginação que proporciona, profetiza a legitimidade dessa eminência que lhe é devida. Crépu, como Proust em Em Busca do Tempo Perdido, que o autor aliás cita, procura assim resgatar das fogueiras flamejantes de Steiner esse espaço que, do livro não sendo, será.

O que é a literatura? Um lugar que não é lugar, um tempo que não se mede pelo tempo, uma língua que não é a linguagem. Esse lugar, esse tempo e essa língua [que] podem tornar-se objecto de um desejo, [e que] permitem pressentir uma forma particular de conhecimento, ou talvez de revelação. (p.55)

O livro constituirá assim, e sempre, essa fábula da revolução em marcha. E enfim porque «pelo caos passa a sombra» (p.71), é no vício impune da leitura que residirá afinal a probabilidade da punição silenciosa a essa tentativa de exorcizar o esclarecimento das sociedades.

Michel Crépu (2006), Esse Vício ainda Impune. In George Steiner, O Silêncio dos Livros. Trad. de Margarida Sérvulo Correia. Lisboa: Gradiva, 71 pp. [ISBN: 978-989-616-191-0]

Sandra Guerreiro Dias

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