Os Livros Ardem Mal

Literatura infantil, património e multimédia

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 09-03-2008

cartolinha

A mais recente obra de Vergílio Alberto Vieira (VAV) no sector «infantil», O Menino Jesus da Cartolinha. Um Auto de Natal, confirma duas coisas sobre o autor: (i) que o seu é um caso de desempenho que no sector infantil consegue ser bem superior ao «adulto», situação não rara na literatura infantil, como se sabe (o que é aliás um pau de dois bicos para esta); (ii) que o seu lugar nesse sector é assinalado pela competência técnica e pela coerência «ideológica». Técnica e ideologia são aqui uma coisa só, já que a proficiência com que VAV usa, neste «Auto de Natal», a quadra em redondilha maior e rima cruzada, é em extremo congruente com um programa cultural de recuperação de um, digamos, folclore muito situado – o de Miranda do Douro – e, ao mesmo tempo, situável apenas naquele lugar onde o folclore deveras mora: a alma do povo. Se a isto acrescentarmos o velho tópico da resistência a Castela, teremos ainda o nacionalismo em versão entranhadamente popular.

A lenda do Menino Jesus da Cartolinha é o tema e o pretexto de (mais) uma investida da nossa literatura infantil por imaginários, textos e heranças para as quais o verdadeiro nome é património. Desse ponto de vista, este livro, como tantos outros de autores que se vão especializando nessa variante da indústria infantil – e que podem ir de Luísa Ducla Soares a António Torrado -, é parte daquela literatura infantil que persistentemente reinventa a sua fundação primeira (e verdadeira) na política cultural do alto romantismo: solo, sangue & vox populi. É claro que dessa trilogia nos chegam hoje rimas e fábulas ilustradas e coloridas, que é como hoje nos chega também o romantismo (qualquer romantismo, dir-se-ia); mas é igualmente claro que as tradições orais, esvaziada a sua ecologia originária, sobrevivem hoje cada vez mais enquanto nicho académico (aliás, de boa saúde) ou, então, enquanto manancial de uma literatura infantil que não se cansa de regredir à origem, ou a uma das versões mais populares da sua origem. E não se cansa, suponho, por duas razões, aliás não inteiramente coincidentes: (i) porque tal regressão rende, e não apenas em simbólico; (ii) porque, em grande medida, esta revisitação e realimentação de uma origem etnográfica é aquele ponto em que a literatura infantil se autolegitima como serviço público: trata-se, a um tempo, de preservação do património e da sua difusão ad usum delphini. Mas não deixa de ser revelador que, no espaço público (excluamos o seu estudo nos sertões universitários), a cultura oral tradicional seja hoje «coisa infantil», ou melhor, coisa abandonada às crianças. [continua aqui >>>]

Osvaldo Manuel Silvestre

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