Os Livros Ardem Mal

Cravan (I)

Posted in Comentários, Crítica by Pedro Serra on Quarta-feira, 05-03-2008

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Os poetas levam sempre porrada, não conhecem ninguém que tenha levado porrada. Há poetas que andaram ao soco, poetas para quem os socos mentais – o soco «para fora da possibilidade do soco» – são mimos que só fazem bem à língua. Isto dói, um murro dói. Quantos socos aguenta o crânio de um poeta, quantos assaltos aguenta um poeta pugilista? Cravan, Arthur Cravan (1887-1918), nos tempos inflamados das primeiras décadas do século XX bateu-se com Jack Johnson em Barcelona. Isto passava-se em 1916, mas vinha de antes a carreira no quadrilátero: em 1910 Cravan era coroado campeão francês dos pesos médios. Numa Praça de Touros Monumental de Barcelona repleta, alguns milhares de espectadores anseiam pelo combate que enfrenta punhos «raciais». O espectáculo acabará por inverter os termos da dialéctica que, pouco tempo antes, insuflara o combate Johnson vs. Willard, em que este último representou o papel de «grande esperança branca». Cravan, aquele mesmo que num poema publicado na (sua) revista Maintenant dissera ser «todas as coisas, todos os homens e todos os animais», manifestará ainda que «um branco não é sequer o cadáver de um negro». Na farsa circense que terá sido o combate, o poeta pugilista aguentaria seis assaltos até ao k.o. final. Vitória efémera, a de Jack Johnson; a derrota de Arthur Cravan seria para sempre. Destrudo radical a deste poeta-boxeur, radical negação da arte dentro do espírito das vanguardas. Cravan, figura da estirpe de um Jacques Rigaut, «l’aventureman suicidé» fundador da Agência Geral do Suicídio. Póstumas as letras, enfrenta-se o mundo com os punhos, apostando o corpo efemeramente vivo na combustão do combate singular. O poeta boxeador não deixa um resto, aquele lastro que vai ficando de uma escrita de punho próprio, aquele rasto movido pelo Trauma. Cravan, na verdade, trocou o «trauma pelo traumatismo», o Trauma por um Traumatismo craniano ou outras escoriações quaisquer: uma proposta cujos termos moveram o Primeiro Campeonato Mundial de Poetas Pesados que teve lugar na cidade de Salamanca a 25 de Janeiro de 2008. Cem anos volvidos sobre a incandescência de Arthur Cravan, um quadrilátero voltou a ser pisado por poetas pugilistas: Gonzalo Escarpa vs. Víctor Pérez e Ben Clark vs. David Moreno. No subsolo de uma cidade de epiderme culta e limpa, a clandestinidade de um clube da luta.

Pedro Serra

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