Os Livros Ardem Mal

Fluidez Textual

Posted in Crítica by Manuel Portela on Terça-feira, 04-03-2008

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Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

Em The Fluid Text: A Theory of Revision and Editing for Book and Screen, John Bryant apresenta uma teoria integrada dos processos de revisão textual, identificando modos e códigos de revisão. O seu objectivo é construir uma síntese entre as teorias elaboradas no âmbito da crítica genética e da teoria do texto social, sem descurar a crítica textual intencionalista. Trata-se, no fundo, de propor instrumentos capazes de conceptualizar as várias formas de instabilidade textual de modo a poderem ser úteis na edição de textos significativamente multiformes. Para isso propõe o conceito de fluidez textual, isto é, a ideia segundo a qual todos os textos existem em mais do que uma versão e que essa alteridade não resulta apenas do processo transmissional, mas está já inscrita no próprio modo de produção literário. A natureza processual do acto criativo implica a multiplicação das manifestações materiais dos textos, seja em pré-publicação ou em pós-publicação. A fluidez textual é testemunho do processo criativo enquanto intencionalidade que se altera e se revê a si mesma, manifestação gráfica dos discursos da cultura e da linguagem que se produzem no sujeito. Bryant lê esse diferimento da obra em termos desconstrucionistas, isto é, como diferimento do sentido e do fechamento da própria obra enquanto tal.

Em geral, a notação convencional usada para dar conta desta dimensão textual relega para um aparato crítico subalterno (em nota ou em apêndice) as marcas do processo de composição e de revisão. Segundo Bryant, a edição ecléctica, ao construir um texto contínuo a partir de diversas fontes oculta a sua própria historicidade e a sua natureza hipotética ou especulativa. Seguindo Jerome McGann, que define o texto como a forma residual de um evento social que depende da colaboração criativa do leitor, Bryant adopta a hermenêutica materialista que localiza o sentido na conjunção entre os códigos linguísticos e os códigos bibliográficos. Por esse motivo, opõe à narratividade da edição crítica tradicional (que apaga a especificidade dos códigos bibliográficos) a necessidade de representar as negociações que ocorrem no processo de revisão textual e que revelam a sua condição social. Propõe um conjunto de códigos de revisão que permitem destrinçar as intencionalidades autorais e editoriais (num sentido lato) que dão forma às versões textuais. Ao mesmo tempo, defende a invenção de formas de notação bibliográfica e electrónica que permitam recombinar texto e aparato crítico, superando a hierarquia e a interrupção inerentes à notação tradicional.

A edição do texto fluído, isto é, a edição que permite tornar legível a fluidez que caracteriza a textualidade, tem levado a repensar as práticas de crítica e edição textual. Com efeito, muitos textos clássicos da história cultural existem enquanto textos múltiplos e em multiplicação continuada. Esta instabilidade material representa a inscrição da historicidade particular do seu modo de produção e de circulação na própria obra, através das versões que a modificam e transformam. Existem nessa condição de textos múltiplos, por exemplo, obras como King Lear, The Prelude, Frankenstein, Leaves of Grass, os poemas de Emily Dickinson, Ulysses, ou Livro do Desassossego. Mas a lista é virtualmente expansível a todo o universo textual, intrinsecamente definido pela proliferação e pela variação. Uma das tentativas dos últimos anos de representar a fluidez textual encontra-se na edição electrónica, ou na combinação da edição electrónica com a edição impressa. O que Bryant sugere é precisamente uma sinergia entre o potencial específico do códice impresso – obrigado, apesar de tudo, a oferecer uma leitura de um texto contínuo – e o potencial específico do computador e do ecrã electrónico – que permitem representar materialmente uma infinidade de variantes textuais na virtualidade do seu modo de simulação gráfica. [continua aqui >>>]

Manuel Portela

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