Os Livros Ardem Mal

Das Obras Completas (II)

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Segunda-feira, 03-03-2008

Americo Rodrigues

Não, não é tudo, pois seria preciso transcrever toda a Errata que é esta Obra Completa de Américo Rodrigues para podermos ter acesso a essa ideia de completude que o título promete – e o miolo do livro logo subtrai, revelando-nos uma obra que afinal se inicia na p. 153. Não desejo fazê-lo, pois além do mais um tal gesto colocar-me-ia sob a alçada da Lei, que prescreve que de uma Obra só se podem transcrever excertos. Em todo o caso, transcrevo mais dois, da p. 156:

Na página noventa, linha nove, onde se lê ‘artista’ deverá ler-se ‘tosta mista’.

Na página cem, linha sete, onde se lê ‘colhões’ deverá ler-se ‘Camões’.

Fico-me por aqui, para não incorrer no risco de fazer coincidir as minhas citações da Obra Completa de Américo Rodrigues com ela mesma. O que, diga-se, de todo não sucede, uma vez que é o próprio livro a jogar tudo numa incoincidência (entre obra e errata). Faço notar que o subtítulo – revista e aumentada (1961-2002) -, estabelecendo uma equivalência entre vida e obra, lança a irrisão para um patamar assaz patafísico: uma errata, eis o que resta de uma vida. Mais ainda, uma errata que se vai autocorrigindo no seu desenvolvimento, sugerindo que qualquer errata necessita do suplemento de uma outra errata, e por aí fora. Assim, o que aumentaria a obra seria a revisão correctiva da errata, que é como quem diz, o erro incontrolável de quem corrige o que é insusceptível de alguma vez ficar de facto corrigido.

O problema reside neste «de facto», uma vez que estranhamente a errata é o único facto desta obra completa: uma espécie de prótese filológica de um corpo sumido. Ou o assustador triunfo de um mecanismo de citação desprovido de texto originário. A inferência é metafísica, patafísica e, claro, ética: a verdade completa da Obra é a errata, nunca a obra e menos ainda a arrogância teológica da completude. Obras, completas ou não, são típicas imputações caritativas daquilo que vamos sendo no tempo: erratas, sempre revistas e (infelizmente) aumentadas.

Que, em rigor – e isto não é melancólico mas antes libertador -, cabem em cerca de 10 pp. Em todo o caso, podemos perguntar-nos se, tendo a errata de uma Obra Completa produzida num arco que vai de 1961 a 2002 as escassas páginas que tem, será que os anos entretanto decorridos (6, para sermos precisos) terão assistido ao seu crescimento autocorrectivo? Por outras palavras, terá Américo Rodrigues, no prelo, uma versão «revista e aumentada» desta errata que é a obra? Prefiro supor o contrário: se a obra de 41 anos não chega a 10 pp., a obra de 46 tenderá a ser ainda mais breve. Até que se chegue a um ponto, difícil de situar e desejavelmente afastado no tempo, em que a errata tenderá a coincidir com o sumiço da obra. Quando já nada houver a corrigir ou, se se preferir, quando a correcção já nada adiantar à ideia e pretensão de Obra.

Quando, enfim, a indesejada das gentes nos libertar da errata – e nos oferecer o vazio esplendor da obra.

Osvaldo Manuel Silvestre

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