Os Livros Ardem Mal

Filmar Carlos de Oliveira (II)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 28-02-2008

extrasol

Sobre o Lado Esquerdo. Um Filme para Carlos de Oliveira, de Margarida Gil (MGil), abre com um plano de fornos de cal em plena laboração: o plano é magnífico, pela reverberação do calor nas paredes e no solo, e pelo seu impacto cromático. De imediato, passa-se para o interior da casa: um homem (Luís Miguel Cintra) escreve à máquina e ouve-se o poema «Estalactite», emblemático da segunda maneira de Carlos de Oliveira (CO). A câmara sobe e percebemos que estamos num estúdio, pois das paredes da casa passamos à teia do tecto do estúdio. Mais para cima, a imagem funde e estamos numa praia com cordão dunar. Volta-se ao estúdio, a câmara exibe um cenário desarrumado, ouve-se um dos poucos textos autobiográficos de CO e a câmara exibe-nos a maquete, que «ilustra» o texto: «Meu pai era médico de aldeia, uma aldeia pobríssima: Nossa Senhora das Febres» (reconstituo de memória, com a ajuda de umas notas). Esta última cena é de uma inteligência deveras fulgurante.

A maquete, bem como o cenário da casa, induzem o mergulho em Finisterra e, em simultâneo (?), na obra de CO. Não tanto porque tais dispositivos de facto mimem algo, mas antes porque nos surgem, na sua materialidade oficinal, como signos, em modelo 1/1, do próprio princípio mimético, cuja password sabemos ser Finisterra. As personagens que se aproximam da maquete, a tocam, acariciam ou manipulam, não produzem assim qualquer tipo de enunciado sobre a relação entre maquete e mundo. «Simplesmente» contemplam, como coisa íntima, o enigma do real e o enigma, ainda maior, dos modelos, brinquedos, truques e fetiches de que lançamos mão para nos certificarmos, quais crianças grandes, de que o real existe. Esta implicação material do próprio princípio mimético é ainda visível na implicação de pessoas como Manuel Gusmão, Fernando Lopes ou Laura Soveral no filme, como personae de personagens diversamente oliveirianas (Gusmão, por exemplo, será «o inventor de jogos»). Por outras palavras, não parece haver um exterior ao mundo representado, já que tais actores se representam a si mesmos como personagens provindas do interior desse mundo ou das franjas em que, por intermédio delas, ele se indecide como auto-reflexão ou redescrição (crítica ou fílmica). A passagem, pelo menos num plano, da casa em estúdio à casa de Ângela e Carlos de Oliveira, mais reforça esta ambivalência que se destina a mergulhar-nos ainda e sempre na vertigem do sistema-Finisterra.

Esta promiscuidade ontológica entre personae e mundos é a ideia forte do filme e é também a sua maior dificuldade. Raramente os planos do mundo exterior ao cenário «aguentam» o confronto com os da cena em estúdio; e as traduções diegéticas de cenas de Finisterra em plena natureza – os peregrinos – tendem ao ilustrativo e falham como que inevitavelmente. No centro de tudo esplende a maquete e o sistema solar que sobre ela se suspende, como um sol negro que absorve o mundo exterior e fetichiza o próprio princípio mimético que o filme explora, numa espiral auto-mimética sem fim. Não importa, nesta lógica, que Manuel Gusmão não seja uma personagem de Finisterra, Fernando Lopes não seja deste filme e Laura Soveral também não. Porque, se este é um filme «para Carlos de Oliveira», todos eles são, de um modo ou de outro, personagens, de direito, do filme. Tal como todos os leitores de Oliveira, que se não alcançam sê-lo de facto, têm um direito inalienável a devir personagens do filme de MGil, que muito ostensivamente os convida a tal. Resta saber se os dois filmes – o filme sobre Finisterra e sobre CO e o filme para CO – podem conviver num só sem mutuamente se danificarem.

Osvaldo Manuel Silvestre

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