Os Livros Ardem Mal

Manuel Gusmão: cognição & cinema

Posted in Notas by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 24-02-2008

Benjamin falava da «distracção» induzida pelo cinema nos nossos hábitos perceptuais e via aí, talvez com excessivo optimismo, o elemento não só salutar como revolucionário desse (então) novo medium. Manuel Gusmão, em entrevista publicada no nº 10 da revista Textos & Pretextos, fala de uma privatização da máquina-cinema ou, se se preferir, de uma internalização dela pelo nosso aparelho perceptivo. É da sua poesia que fala, mas é também, e creio que sobretudo, de um devir-cinema do mundo:

Mas eu também tenho a mania de pensar que todos nós somos uma espécie de cinema ambulante, isto é, que todos nós temos uma espécie de cinema na cabeça que consiste numa máquina que projecta num ecrã onde vemos a imagem, numa sala escura com pessoas lá dentro. (pp. 117-9)

Não consigo deixar de pensar que, num momento em que o cinema é muito nitidamente uma arte assassinada pelo devir tecnológico que aliás o fez nascer – o Home Cinema não é já «uma sala escura com pessoas lá dentro», a própria sala escura tem cada vez menos pessoas lá dentro, a histeria tecnológica dos Multiplex, bem patente no som ensurdecedor, é um último estertor –, aquilo que ele historicamente foi nas salas escuras, na nossa cabeça e na ordenação dos espaços de lazer das nossas cidades, é e será cada vez mais material e devir literário e poético. Ou seja: uma projecção que mora cada vez mais na nossa cabeça; um dispositivo que cumpriu o seu papel histórico; um ponto de passagem para novas e ainda mais vertiginosas modalidades de percepção e cognição; uma preciosa memória afectiva. E política, já agora, uma vez que convém não esquecer que o cinema é uma arte do tempo das grandes revoluções (políticas e artísticas). Mas se calhar é disso que realmente falam as palavras de Manuel Gusmão.

Osvaldo Manuel Silvestre

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