Os Livros Ardem Mal

Filmar Carlos de Oliveira (I)

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 24-02-2008

Margarida Gil

Pude assistir ontem, na Biblioteca Municipal de Cantanhede, a uma projecção da obra de Margarida Gil (MGil) Sobre o Lado Esquerdo. Um Filme para Carlos de Oliveira, com guião de Manuel Gusmão (MG). Dividido em 5 partes – 1. Finisterra; 2. Ofício Nocturno; 3. Descida aos Infernos; 4. O Inventor de Jogos; 5. Pastoral: Cinema e Dedicatória -, o filme de MGil surpreende, desde logo, por nada ter a ver com o género documental. Do género, apenas duas breves entrevistas, projectadas antes do filme propriamente dito, com Manuel Augusto e Fernando Santos, habitantes ambos de Febres, contemporâneos de Carlos de Oliveira (CO) e, no caso do segundo, médico que longamente praticou no consultório e na casa que antes pertenceram ao pai e à família de CO. Este intróito, filmado de acordo com as convenções miméticas do documentário – plano frontal, cenário milimetricamente realista: Manuel Augusto de samarra, ao pé da lareira, Fernando Santos de bata -, parece prometer aquilo que o corte na projecção e a exibição do genérico do filme logo dão a ver: que este ainda de facto não começou e que o intróito tende antes ao extra protocolar em edições em DVD (que esperemos não tarde).

A filiação do filme é antes na tradição da Arte e Ensaio, se tal designação é ainda hoje recuperável, e é difícil, ao vê-lo, não reflectir sobre a fortuna cinematográfica da obra de CO. Uma Abelha na Chuva (1971), de Fernando Lopes, era uma leitura do romance que pressupunha, (i) do lado do espectador, a leitura prévia da obra, cujos materiais eram sintacticamente descompostos e recompostos e, em bom número, dispensados pelo realizador; (ii) a leitura, pelo realizador, da restante obra romanesca e da crítica dela, recuperando, para um momento relevante, a suposta filiação camiliana de CO; (iii) a leitura dessa restante obra romanesca e da poesia de CO, especialmente patente em momentos não-diegéticos preenchidos com planos provindos da obsessão e descrição geológicas de Casa na Duna, Pequenos Burgueses ou da poesia de Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem. A que haveria que acrescentar o apelo, então momentoso, do cinema de Straub, entre outros. Por outras palavras, Fernando Lopes lê Uma Abelha na Chuva, em grande medida, a partir da revisão crítica a que CO por aqueles anos vinha submetendo a sua obra (pois é nítido que as versões da obra romanesca com que opera são as revistas), e a partir da sua poesia então mais tardia.

MGil, com a decisiva contribuição de MG, opta por reler a obra com e a partir de Finisterra. O que resulta daqui é um objecto fascinante, muitas vezes belíssimo (lembro por exemplo o plano, cromaticamente saturado, de um lento caracol na casca rugosa de um pinheiro, enquanto se ouve um excerto da obra de CO), mas tão denso de referências e remissões internas quanto o filme de Lopes o fora para Uma Abelha na Chuva. Ou mais ainda, uma vez que o filme de Lopes, desde o título, ainda que aí de forma algo enganadora, tinha como objecto um romance e, supostamente, uma história. O filme de MGil, porém, não é a transposição de Finisterra, mas antes, a partir desta, uma revisitação profunda dos temas, obsessões e materiais construtivos da obra de CO. A sensação de labirinto e perda é tão forte, para o espectador desprevenido, como a da percepção de uma rigorosa cartografia da obra, para o leitor mais frequentador da mesma. O que é ajudado ou reforçado pela opção do guionista, corroborada pela realizadora, de apenas utilizar texto do próprio CO, o que elimina à partida uma voz exterior ou transcendente à obra – é esse o momento ético do filme de MGil -, fazendo da figura do «mergulho» na sua lógica profunda a verdadeira senha de acesso aos segredos do filme.

Osvaldo Manuel Silvestre

Anúncios

Comentários Desativados em Filmar Carlos de Oliveira (I)

%d bloggers like this: