Os Livros Ardem Mal

Espinosa (III)

Posted in Autores, Comentários by Pedro Serra on Domingo, 24-02-2008

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Há dois aspectos desta segunda edição de La fea burguesía que provocam alguma perplexidade. Uma perplexidade que, todavia, não deixa de ter consequências produtivas no que se refere à leitura da obra. O primeiro deles é a capa do romance, sendo bem mais feliz a de 1990. Um São Jorge matando o Dragão é substituído, agora, pelo recorte da representação de Adão e Eva. De um ponto de vista, digamos, temático, a substituição iconográfica ajusta-se plenamente ao romance, é certo. A capa lê o romance enquanto romance que tem por fulcro a instituição matrimonial e familiar. Contudo, a primeira capa, sendo mais alusiva, parece-me graficamente muito mais instigante. O romance é também, precisamente, uma espécie de combate épico e quimérico contra o mal absoluto.

O segundo dos aspectos que nos deixa algo perplexos é a soma de um apêndice que não constava da primeira edição. Este apêndice integra dois pequenos capítulos autónomos: «José López» e «Juan Eugenio». Noutra oportunidade direi sobre algumas determinações importantes do espólio editado de Miguel Espinosa, e do processo complexo de gestação e publicação das suas obras. O gesto de introduzir agora estes dois novos capítulos, se muito possivelmente obedece a conveniências do mercado editorial, não deixa de ser sintomático de uma obra como a de Miguel Espinosa que foi sendo elaborada aquém de uma destinação editorial férrea. Seja como for, os capítulos «José López» e «Juan Eugenio», do meu ponto de vista, truncam a unidade ficcional do conjunto narrativo, centrado como mencionei no primeiro post em diferentes avatares da domus aurea burguesa.

Este foi, sem dúvida, um tema do tempo, um problema do tempo. Pelos idos da elaboração do romance, por exemplo, era publicado por uma notável ensaísta catalã, María José Ragué Arias, um conjunto de entrevistas intitulado Proceso a la familia española (1979). «Processo à família espanhola» é o que temos, precisamente, nas ficções Castillejo e Cecilia, Clavero e Pilar, Krensler e Cayetana, Paracel e Purificación, Camilo e Clotilde… Contudo, se no livro de Ragué Arias se pensa a instituição matrimonial num quadro utópico, a obra de Miguel Espinosa devolve-nos um núcleo familiar conspurcado, expulsão do éden, ninho progressivamente corroído, que sugere aliás enterramento in vivo, esterilidade uterina e crime doméstico. No centro da óikos, no âmago da domus aurea burguesa, a irradiação do crime, um crime que fascina os indivíduos, que os lança no entre-lugar do privado vs. público, sonho (pesadelo) vs. vigília, sujeito vs. Estado, confissão vs. manifesto, aspectos a que me referirei noutra ocasião. Um processo que, evidentemente, tem uma notória tradução política, ao ser a «família» fundamento ideológico da ditadura, ou não fosse etapa histórico-social legendada pelo dictum «Deus, Pátria, Família». Elenco de casais certamente incompleto – qual a soma dessas ficções matrimoniais? – mas que, sem obviar as diferenças das determinações contextuais dos romances em causa, nos convida a pensar a «intimidade familiar» como arca pectoris da sociedade espanhola do tardofranquismo.

O novo apêndice não deixa de ter as suas valências de leitura. Dramatiza, do meu ponto de vista, o que a nova imagem da edição de 2006 não anuncia de modo explícito. José López e Juan Eugenio voltam a encenar a dialéctica truncada Camilo/Godínez, colocando em evidência um elemento inscrito no cerne do universo ficcional espinosiano: são figuras reais, com quem Espinosa conviveu, transpostas para a ficção. O combate mortal de Miguel Espinosa, neste sentido, fez-se contra os Juan Eugenios:

No diríamos que una llama que consume arde en su vista, sino en su estómago; como personaje del Greco, el cuello torcido, la cabeza en ascensión, parece un hombre sin intestinos ni grasas, oquedad de la carne, fuego sagrado…

Pedro Serra

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