Os Livros Ardem Mal

Espinosa (II)

Posted in Autores, Comentários by Pedro Serra on Sábado, 23-02-2008

Miguel Espinosa

Em síntese e descrição possíveis, La fea burguesía de Miguel Espinosa como que reconduz o foco narrativo a um lugar ascético, rasurando o gestus interpretativo, o olhar do theoros. Ao mesmo tempo, objectiva aquele objecto em princípio menos objectivável: a linguagem. Língua burguesa estática, intratável pela interpretação, daí a sua opacidade e dureza. Cristalizada no seu momento performativo, a língua burguesa envelhece no seu hic et nunc enternizado. Língua passada presente. A língua burguesa devém objecto estético, sendo que ela mesma é objecto estético, aliás de curso universal absoluto. O que Espinosa nos propõe é um mundo social estetizado, e autonomizado como estética, independendo de um sentido. Não há sentido latente na língua burguesa. Ela significa aquilo que literalmente significa. Lembra, de algum modo, uma injunção adorniana, concretamente a de que o literal é a barbárie. Daí a importância do pacto narrativo da segunda metade da obra. Como escriba, o narrador transcreve ipsis verbis a palavra estetizada burguesa. Godínez é bem o objecto correlativo do escritor que, mediador funcional inter-classista – proletariado/burguesia – se cumpre também (e ainda) como sujeito autónomo. É, a sua, uma crítica indiscernível de uma auto-crítica à consciência burguesa. A língua burguesa é reconhecida como monumento, sim. Mas tal reconhecimento, diríamos, enfim, na esteira benjaminiana, pressupõe ainda algo como a antecipação da sua ruína.

Nem Balzac, nem Dostoievski nesta poética do romance de Miguel Espinosa; um modelo assumidamente realista, mas sem pulsão mimética. Este realismo é poético ao ser, fundamentalmente, produção de auto-referencialidade que transforma o discurso social que constrói a realidade: «si el novelista no transforma el lenguaje que oye en lenguaje literario, no recoge nada de lo real, capta el silencio de la apariencia». Enquanto realismo poético, o projecto estético de Miguel Espinosa produz uma textualidade que assenta na dialéctica de dois termos: por um lado, na objectivação absoluta do real enquanto produto do uso socialmente consensuado da linguagem; por outro lado, no estranhamento desse real por uma linguagem romanesca autoral que se sustenta na auto-referencialidade. Completa este quadro estético, a sua subsunção a uma distribuição moral totalmente objectivada: o fascismo é o mal absoluto, essa maldade absoluta é a absoluta realidade do fascismo; a utopia negativa é a dissolução desse absoluto pelo estranhamento. Dissolução que é especialmente notória em La fea burguesía, ficção implacável na negação de um horizonte de reconciliação social.

Valerá ponderar aqui a noção que o próprio Espinosa propôs para definir um romance anterior – na verdade o romance do corpo ficcional deste escritor -, Escuela de Mandarines (1974). O universo ficcional espinosiano configura uma «utopia negativa», pois «intenta exponer lo que no debe ser, mediante el método de abstraerlo de la sociedad real, donde se encuentra, y, una vez aislado, exagerarlo para otorgarle el valor estético y elevarlo a un antimodelo». Os termos da utopia negativa, enquanto projecto de renovação do romance, devolvem-nos uma explícita ética do estético que não deixará de ter matriz modernista. É na produção de uma auto-referencialidade intrinsecamente negativa que Espinosa cumpre o desígnio de uma arte social contra a sociedade. Esta ética da forma – uma ética da forma que pode ser lida como pulsão latamente clássica que introduz o inactual num tempo realizado, tempus pós-moderno – tem também um vínculo possível com as versões fortes do formalismo modernista.

Pedro Serra

Comentários Desativados em Espinosa (II)

%d bloggers like this: