Os Livros Ardem Mal

Espinosa (I)

Posted in Autores, Notas by Pedro Serra on Sábado, 23-02-2008

Miguel Espinosa

Miguel Espinosa (1926-1982) terá escrito La fea burguesía entre 1971 e 1975. Romance ainda revisto em 1980, já só seria publicado na versão final em 1990. Edição póstuma, pois, que acaba de conhecer uma segunda edição (2006), novamente pela chancela da editora Alfaguara. La fea burguesía articula uma singular poética do romance, poética apostada na representação da burguesia, também referida como «clase gozante». «Classe» não obedece a um sentido estritamente materialista, nem o universo social representado se subsume a uma dialéctica de classes, antes à cristalização do seu cancelamento. O romance é constituído por duas partes. A primeira delas, sob o título de «Clase media», é integrada por cinco histórias independentes. Cada um desses núcleos narrativos centra-se num casal, sendo que cada um dos cinco casais nomeia as diferentes histórias: Castillejo e Cecilia, Clavero e Pilar, Krensler e Cayetana e Paracel e Purificación. A segunda parte do livro, por seu turno, tem por título «Clase gozante». É composta por apenas um capítulo, mais longo que os anteriores, subtitulado com os nomes próprios de um outro casal, Camilo e Clotilde.

Sublinho, de momento, um único aspecto formal deste romance, concretamente aquele que estrutura o pacto narrativo da segunda parte do livro. O narrador de «Clase gozante» é um narrador em primeira pessoa, o contador da história é precisamente a personagem Camilo. O pacto narrativo desta segunda metade de La fea burguesía implica que a voz ficcional que se dirige ao leitor seja um burguês exemplar. Esse leitor potencial, e este é um ponto importante, é ficcionado pelo próprio romance. A história é contada por Camilo, figura paradigmática da classe hedonista, a uma outra personagem, Godínez, indivíduo que se situa, de um ponto de vista social, nas margens do círculo propriamente burguês. Enquanto Camilo é um alto funcionário do aparelho burocrático do Estado – epítome, pois, da alta classe média que sustentou e foi legitimada pelo franquismo – Godínez pertence a um stratum social também referido como classe média, mas que não se manifesta absolutamente como «clase gozante». Na verdade, a peculiaridade da personagem reside precisamente no facto de nunca poder vir a aceder a esse círculo social de eleição. Godínez é – e este termo é o termo usado no romance – um proletário. Ser proletário significa prioritariamente, dentro dos limites nocionais do romance, que Godínez é exposto à fealdade burguesa mas que nunca encarnará esse mal absoluto.

E, todavia, a condição de ouvinte e tentado pela sedutora língua de Camilo não esgota o estatuto ficcional de Godínez. Constatamo-lo apenas no último parágrafo do romance, parágrafo que explicitamente situa Camilo e Godínez numa cena de tentação. Camilo é o tentador e Godínez o tentado. Camilo fala – narra, é o narrador – e Godínez escuta, isto é, é tentado pelo discurso da voz autoritária do primeiro. São estas as palavras finais do romance:

Un hombre fue tentado, por otro hombre, a inclinarse por lo que no podía alcanzar, dada su naturaleza, lo cual entraña la más alta tentación ya que conduce a la desesperación. El tentado empero, resistió la seducción mediante la acción de escucharla y transcribirla, retratando con ello el tentador y apartándolo de sí.

Notável este turn of the screw final do romance! Godínez não apenas ouve o relato de Camilo: Godínez é, também, responsável pela sua transcrição. Escrever as palavras da vida social alienada, da fealdade burguesa, significa simultaneamente ceder/resistir à alienação.

Miguel Espinosa (2006), La fea burguesía. Madrid: Alfaguara, 312 pp. [ISBN: 842046984X]

Pedro Serra

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