Os Livros Ardem Mal

Madame Bovary, 150 anos depois

Posted in Comentários by A. Apolinário Lourenço on Quinta-feira, 21-02-2008

Madame Bovary

Concretizaram-se, no ano há pouco terminado, cento e cinquenta anos sobre a publicação em livro de Madame Bovary, o genial romance de Flaubert. Estranhamente, a efeméride passou entre nós praticamente despercebida, apesar da enorme influência que essa obra e o seu autor exerceram sobre a literatura portuguesa, a partir do final do século XIX.

Para Eça de Queirós, em particular, Gustave Flaubert foi permanentemente um mestre e um modelo. Logo em 1871, quando o futuro autor d’Os Maias apresentou no Casino Lisbonense a sua conferência sobre o realismo na arte, com um discurso demasiado colado ao do livro de Proudhon intitulado Du Principe de l’art et de sa destination sociale, os parágrafos mais originais foram justamente aqueles que dedicou a Madame Bovary. A conferência, como se sabe, é apenas conhecida pelos relatos da imprensa da época (neste caso, o Diário Popular de 15 06 1871):

Para exemplificar a doutrina do realismo, citou o Sr. Eça de Queirós Madame Bovary, o célebre livro de Gustave Flaubert, no qual o adultério tantas vezes cantado pelos românticos como um infortúnio poético que comove perniciosamente a susceptibilidade das almas cândidas, nos aparece pela primeira vez debaixo da sua forma anatómica, nu, retalhado e descosido fibra a fibra por um escalpelo implacável. O efeito é surpreendente e terrível.

Constatamos, assim, que foi a leitura de Madame Bovary que fez Eça compreender a superioridade civilizacional e ética do Realismo sobre o Romantismo. Outros autores, como os irmãos Goncourt e Émile Zola, em França, sentiram, perante Madame Bovary, um deslumbramento idêntico ao de Eça. E enquanto Edmond et Jules de Goncourt criavam, com Germinie Lacerteux, uma espécie de Bovary das classes baixas, Zola procuraria, igualmente a partir do romance de Flaubert, desenhar o modelo técnico-narrativo do romance naturalista.

Alguns críticos gostam de recordar as cartas de Flaubert em que este se considerava crítico e opositor do realismo. Contudo, o realismo de que se distanciava o autor de Salammbô não era o «realismo» em abstracto, mas a prática romanesca de autores integrantes do «grupo realista» que gravitava em torno de Champfleury e de Courbet. Na revista Réalisme, saiu em 1857 uma crítica demolidora de Madame Bovary. O autor da crítica, o também romancista Edmond Duranty, advogava que o discurso literário deveria ser em tudo idêntico ao discurso coloquial e denunciava o romance de Flaubert por ser «feito a compasso, com minúcia; calculado, trabalhado, feito de ângulos direitos e, definitivamente, seco e árido». Ao contrário de Champfleury e Duranty, Flaubert era um esteta, que trabalhava o discurso com uma paixão obsessiva, logrando atingir, como disse Roland Barthes em O grau zero da escrita, «um sexto sentido, puramente literário, interior aos produtores e aos consumidores da Literatura». Contudo, como escreveu William Paulson a propósito de outro importante romance de Flaubert, A Educação Sentimental, a sua «preocupação com o estilo, longe de o distrair relativamente às dimensões histórica e social da sua obra, era acompanhada por uma obsessão idêntica pela fidelidade ao mundo exterior ao texto», que o levava, por exemplo, à leitura intensiva dos jornais da época em que situava a acção dos seus romances e à visita demorada aos cenários romanescos, tomando, para cada um dos seus livros, muitas dezenas de páginas de fichas de trabalho.
[continua aqui >>>]

António Apolinário Lourenço

Comentários Desativados em Madame Bovary, 150 anos depois

%d bloggers like this: