Os Livros Ardem Mal

Dilatar o logos pela lei da paródia

Posted in Crítica by Miguel Cardina on Segunda-feira, 18-02-2008

guardadorretretes.gif«Algumas palavras ladrar-vos-ão-ão na cara», avisa Pedro Barbosa as «excremências» às quais dedica O Guardador de Retretes, cuja recentíssima 4.ª edição foi agora disponibilizada pela Afrontamento. Trinta anos passados sobre o texto original, os latidos podem ter perdido, com o tempo, alguma da corrosibilidade, mas o estilo – feito do jogo constante entre a inventividade subversiva e a simulação de uma oca grandiloquência académica – continua a deliciar.

Estávamos em 1976, com o ar ainda carregado de certezas rutilantes, quando foi publicado este (anti-)estudo sobre a sapiência escondida no anonimato das casas-de-banho. Nele se respigam e analisam desabafos, comentários, poemas, aforismos ou proclamações feitas naquele lugar-momento «que os bons costumes sempre escarneceram, vilipendiaram, cobriram de ignorância» e que tem a virtude de colocar todos os homens – a retretologia feminina é pouco abordada – em pé de igualdade.

Com o objectivo confesso de «provocar a indigestão intelectualista», Pedro Barbosa desenvolve um soberbo exercício da arte de mal-dizer, marcado pela pulsão iconoclasta que os ventos pós-1968 foram semeando. A filiação nesta ambiência soixante-huitard é notória, tanto na crítica mordaz à instituição universitária (na linha das intervenções-choque efectuadas pelos situacionistas), como na denúncia da cultura dominante, feita através do recurso a uma realidade discursiva marginal – a «portografia retretológica» – aqui trabalhada com evidentes, e por vezes sublimes, traços de ironia e humor.

Ao mesmo tempo que desfere um forte ataque ao agostiniano repúdio pelo corpo, o autor caricatura um tipo de racionalidade hermética e auto-referencial, utilizando para isso a descontextualização do estilo e a consequente activação do ridículo como arma. Daí que Pedro Barbosa defina o texto, nas primeiras linhas do prefácio a esta edição, como a «ficção de um ensaio». Ficção, portanto, e como tal apelando à transfiguração daquilo que é dito à superfície. Mas em tempos de (algum) pluralismo metodológico e de abertura a objectos científicos menos ortodoxos, não é possível ler este O Guardador de Retretes sem se ser atravessado por uma perplexidade: e se alguém academicamente levasse a ideia a sério?

Pedro Barbosa (2007), O Guardador de Retretes. Porto: Edições Afrontamento. 109 pp. Com posfácio de Manuel Frias Martins. 1.ª edição: 1976 [ISBN: 978-972-36-0920-2]

Miguel Cardina

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