Os Livros Ardem Mal

JG Ballard: observações incivilizadas

Posted in Autores by Luís Quintais on Domingo, 17-02-2008

BallardSaiu este ano o trigésimo livro de JG Ballard. Miracles of Life. Shanghai to Shepperton é a autobiografia que irá certamente fechar o percurso de um dos inevitáveis e notáveis escritores modernos. Ballard é aquele que emblematiza melhor o perfil distópico do progresso científico e da razão para todos. E disse «fechar» porque sabe-se que a motivação para esta autobiografia encontrou-a Ballard no facto de lhe ter sido diagnosticado um cancro em estado avançado. A aguda percepção da sua morte próxima, pois. Não vou escrever aqui (para já) sobre este livro genuinamente comovente (o que não é, como muitos pensarão, algo de insólito em Ballard). Gostaria apenas (e para já) de aqui deixar alguns fragmentos de uma entrevista que Ballard deu a Paulo Moura em 2004 para a Pública (7 de Novembro):

«Que podem fazer os políticos?
Não podem fazer nada. Estão presos ao conceito tradicional de política. Veja a Administração americana. Ainda está agarrada aos conceitos do século XX. Pensam sempre em termos de navios de guerra, tanques, ataques aéreos. É a América de 1945 com muito mais tecnologia, mas a mesma filosofia: se alguma coisa corre mal, bombardeia-se os gajos. Ora isto não se compadece com o mundo que temos. E depois os políticos ainda pensam que o seu papel é organizar a sociedade de forma mais justa e razoável. Também tem de ser isso, mas não só. Vocês já se viram livres da realeza, não é verdade?
Sim, em 1910.
Boa jogada. A monarquia está desacreditada. Mas a república também. Bem como a Igreja. Bom nos EUA, 60 por cento das pessoas voltam-se para a Igreja, numa busca desenfreada do irracional. Eles têm uma indústria de entretenimento desde 1930. Uma prosperidade enorme e ainda a crença de que se trabalharem podem ter uma vida melhor. Mas o que será essa vida melhor? A Disneylândia? Mais consumo?
Não é isso que as pessoas continuam a procurar?
Tem de haver algo mais na vida do que apenas consumir coisas. Isso foi um bom ideal até certa altura, mas agora é um projecto que está esgotado.
A civilização ocidental vai então acabar?
A filosofia da Luzes, nascida com a Revolução Industrial, com a sua promessa de riqueza, prosperidade, já deu o que tinha a dar. O Iluminismo é um projecto acabado. Está nas suas últimas fases e as pessoas estão a voltar-se para o irracional. Para a religião, como nos EUA ou na Arábia Saudita, ou para o irracionalismo político, como os grandes projectos utópicos do século XX, o comunismo e o fascismo, que originaram dois gigantescos pesadelos…
Estará para nascer mais algum grande projecto utópico?
Eu vejo a possibilidade de o consumismo, para sobreviver, sofrer uma mutação. Transformar-se numa espécie de versão soft de fascismo. Há muitas similitudes. Os princípios psicológicos que lhe subjazem são os mesmos.
O consumismo não pressupõe a liberdade individual?
Não. É um tipo de autoritarismo, porque é um sistema de promessas. Compre isto e terá a felicidade. É uma promessa ideológica. A publicidade é um meio de dominar as nossas mentes, de forma autoritária, prepotente, sem argumentos racionais. As pessoas sabem isso e aceitam, porque gostam de obedecer.
Não se pode dizer que seja um optimista quanto à natureza e futuro da humanidade. Até que ponto a sua infância na China, durante a guerra, num campo de concentração, influenciou a sua visão do mundo?
Vivi em Xangai durante a ocupação japonesa, até aos 16 anos. Tive de crescer muito depressa. Aprende-se muita coisa, com essa experiência de viver, durante uma guerra, sob controlo inimigo. Ser civil e estar completamente à mercê deles. Ser uma criança e ver os pais também à mercê, inseguros. Sem terem comida para nos dar, cheios de medo. É absolutamente assustador. Ensina-nos para sempre que não podemos tomar nada por garantido. E que o mundo em que vivemos é muito mais perigoso do que parece.
É, de certa forma, um mundo fictício.
É um cenário. É assim que eu o vejo. Como um cenário de um filme, que pode ser derrubado em dez minutos, para ser substituído por outro.»

Luís Quintais

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