Os Livros Ardem Mal

Crimes e prémios

Posted in Crítica by Osvaldo Manuel Silvestre on Domingo, 17-02-2008

Purga em AngolaUm livro estranho, porque frequentemente mal escrito; e um livro estribado numa série de preconceitos ideológicos demasiado evidentes. Mas um livro importante, pelas duas ou três coisas que deixa estabelecidas de forma não direi definitiva – a ocorrência é daquelas cuja modalidade de existência subtrai, em muitos casos para sempre, testemunhos e evidência – mas muito mais definida: 1) que em resultado do 27 de Maio de 1977, em Angola terão sido mortas cerca de 30 000 pessoas, com o pretexto de serem simpatizantes de Nito Alves (um massacre, que o seria sempre mesmo que esse número descesse para metade ou um quarto, números sempre superiores aos do Chile de Pinochet); 2) que Agostinho Neto, que afirmou a propósito da intentona: «Não haverá contemplações. Certamente não vamos perder tempo com julgamentos», assinou documentos autorizando execuções e, no mínimo, foi complacente com muitas outras; 3) que nos tristemente famosos interrogatórios aos detidos colaboraram, de forma variada e com graus diversos de empenhamento, escritores como Pepetela, Costa Andrade, Manuel Rui ou Luandino Vieira. Ou seja, dois futuros prémios Camões. É certo que Pepetela já tratou em romance o «desencanto da revolução». E que Luandino se tornou «o recluso de Cerveira» e não aceitou o prémio. No que andou muito bem, pois há algo de inaceitável na associação do nome de Camões – ou seja: o nome da poesia – a quem pactuou com a infâmia (ponto já referido, de outro modo, por Rui Bebiano).

Os intelectuais apreciam sempre referir, a propósito de ética intelectual e liberdade de expressão, casos como o de Ossip Mandelstam, que em 1942 compôs, sem nunca chegar a escrevê-lo, um poema sobre um tirano que ordena execuções sem parar e as saboreia «como um georgiano come framboesas». Estaline soube, reviu-se facilmente no retrato e deportou o poeta para o exílio interno na cidade de Voronezh (não sem antes ter famosamente perguntado por telefone a Pasternak se Mandelstam era «um mestre»: a resposta afirmativa de Pasternak terá ajudado a que a penalização tenha sido «só» essa). E, mais tarde, fez pressão para que o poeta compusesse uma ode à sua pessoa, o que este acabou por fazer. É curioso como o grau de exigência ético-moral dos intelectuais baixa em função de certos contextos, neste caso pós-coloniais, que não parecem susceptíveis de suscitar indignação ou sequer reflexão, senão décadas depois e sem que isso afecte visivelmente comportamentos e reputações (coisa muito diferente, já agora, do que sucedeu com Jorge Luís Borges, que por bem menos se viu privado do mais que merecido Nobel – o que, esclareço, me parece justo). Em todo o caso, permito-me desejar que o Prémio Camões nunca seja atribuído a Manuel Rui.

Creio que tudo isto chega para recomendar a leitura deste livro.

Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus (2007), Purga em Angola. Nito Alves, Sita Valles, Zé van Dunem, o 27 de Maio de 1977. Porto: Asa. 208 pp. [ISBN: 978-972-41-5372-8]

Osvaldo Manuel Silvestre

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