Os Livros Ardem Mal

30 anos depois (III)

Posted in Comentários by Osvaldo Manuel Silvestre on Quinta-feira, 14-02-2008

finisterraSe as grandes obras são «cadernos de encargos» para os leitores futuros, Finisterra. Paisagem e Povoamento parece ter a capacidade de renovar ciclicamente o conjunto de encargos que disponibiliza, ao sabor das solicitações de novas gerações de leitores (ou de leitores que a história renova). Desse ponto de vista, a obra é uma instância mais daquele princípio geral segundo o qual os clássicos não o são por uma fundação prévia, mas sim porque nós continuamos a lê-los (àqueles que vão sobrevivendo), sempre de maneira diferente e sem nenhuma garantia, aliás, de que continuaremos a fazê-lo.

Finisterra é uma obra justamente famosa pela sofisticada teoria da representação que activa e encena, desdobrando-a, por alíneas, (i) no desenho infantil, (ii) na pirogravura, (iii) na fotografia, (iv) no animatógrafo, (v) na maquete. A infindável plasticidade com que a obra acolhe novas versões e teorias da mimese revisitou-me há dias, quando contemplava a planta, realizada em AutoCAD, de um edifício em 3D. Não me ocorreu naquele momento, nem sequer nos dias seguintes, que o facto específico de se tratar do desenho daquela que será, como se espera, a futura Fundação Carlos de Oliveira, em Febres, Cantanhede, pudesse ter sido determinante na sensação, que me tomou, de estar de novo a mergulhar no interior da vertigem-Finisterra. Porque Carlos de Oliveira viveu naquela casa, que poderia pois ser uma possível versão da casa de Finisterra, uma casa que aliás não consigo de todo imaginar.

O ponto, contudo, é este: ao contemplar, deslumbrado, a planta do edifício em 3D – um edifício mais belo do que qualquer edifício empírico – apercebi-me de que estava a assistir ao triunfo da máquina-Finisterra sobre a pálida e imperfeita realidade fenomenal. Porque a versão da casa em 3D está obviamente contida na historicidade técnico-artística do «programa» de Finisterra. As 3 dimensões são o que vem necessariamente depois da maquete, na sequência, que o romance instaura e explora, da história e do progresso das técnicas de representação. Com a diferença de que enquanto a maquete prolonga a ordem empírica do representado (como também a fotografia), que apenas contrai ou reduz por modelização, as 3D instauram uma solução de continuidade entre essa ordem e a da representação. As 3D são uma versão da realidade (uma antecipação) que em rigor nunca existirá, pois nenhuma realidade poderá estar à altura desta formalização, que procede – ponto decisivo para uma obra como a de Oliveira – por desmaterialização (sou tentado a escrever: por traição).

O espantoso é que esta é uma forma «cheia», ou não fosse tridimensional, e por isso fenomenologicamente esmagadora. Um edifício em 3D não faz prisioneiros: absorve-nos na sua voragem, que é, digamos, a um tempo a da utopia das formas e a dessa forma radical da utopia política moderna que é a arquitectura enquanto sonho visível. É neste sentido que a literatura é a versão imemorial de que dispomos daquilo que as 3D nos deram enfim a ver: um mundo tão ideal quanto formalmente saturado, isto é, belo, senão sublime. E é nesse sentido também que a literatura não pode deixar de ser uma forma de resistência a versões tão alucinatórias da mimese como as 3D, já que a literatura, como a arte em geral, é simultaneamente alucinação e (ou sobretudo) resistência dos materiais.

Poderei ainda sugerir que o leitor alucinado que há em mim lamenta não ter podido nunca visitar os recessos da casa de Finisterra em 3D? Ou, e assim termino, que Finisterra é um romance concebido («programado») e executado em AutoCAD?

Osvaldo Manuel Silvestre

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