Os Livros Ardem Mal

Códigos de (má) conduta

Posted in Polémica by Osvaldo Manuel Silvestre on Quarta-feira, 13-02-2008

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O recente episódio da resenha não-publicada (ou melhor: censurada) de Dóris Graça Dias (DGD) a Rio das Flores, de Miguel Sousa Tavares (MST), no Expresso, é apenas a última ocorrência de um estado de coisas a que ninguém escapa ileso nos média portugueses. Muito brevemente, eis o talvez essencial sobre a questão:

1. Da qualidade ou não da resenha. De acordo com alguns – Henrique Monteiro, desde logo, MST, claro, e ultimamente o próprio Conselho de Redacção do jornal, além de outros opinadores – o texto em causa confunde resenha com ataque pessoal, pelo que não cumpre a função de uma resenha. É um mau espécime do género, digamos, razão pela qual bem andou o solícito director do Expresso ao não permitir a sua publicação em papel (o que já não sucedeu on line: muito haveria a dizer sobre a net como espaço de alívio da má consciência – deve ser esta a versão jornalística da «catarse» aristotélica). Ora, sejamos claros, por que é que a qualidade da resenha é uma falsa questão? Porque (i) lendo o texto, não me consigo aperceber de uma diferença qualitativa notória entre este e todos os outros que DGD vem publicando no Actual. A sua presença regular é aliás um indício evidente do vácuo crítico do Actual desde há demasiado tempo, situação obviamente sufragada por quem dirige o jornal, não se percebendo pois por que razão este texto deva ser considerado especialmente mau; porque (ii) se uma boa resenha é, como pretende o director do jornal em comunicado entretanto publicado, um texto que pratica «o respectivo enquadramento, por exemplo: Onde se passa a acção da obra? Quais as suas personagens? Qual o tempo histórico que abarca?», isto só significa que o director agora auto-promovido a doutrinador da crítica não só desconhece toda a história da crítica moderna, como seguramente consideraria inaptos para a função críticos como Harold Bloom e Eduardo Lourenço (fico-me por aqui) – assim como consideraria muito apto um Vasco Pulido Valente, que num texto tão demolidor quanto criticamente vesgo arrasou o romance de MST precisamente por lhe fazer as perguntas que Monteiro propõe para o novo decálogo da crítica; porque (iii) se a questão é o ataque mais ou menos feroz, não se percebe como foram publicadas algumas resenhas das mais marcantes de um António Guerreiro, por exemplo; porque (iv), enfim, a maior ou menor qualidade do texto, como a sua natureza supostamente pouco ética, não afecta o ponto essencial, a saber, que houve um efectivo acto de censura. Do ponto de vista deontológico, ter-se permitido que MST lesse o texto antes da sua putativa publicação é mesmo algo que dispensa comentário.
[continua aqui >>>]

Osvaldo Manuel Silvestre

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