Os Livros Ardem Mal

A verdade do veneno

Posted in Notas, Recensões by Ana Bela Almeida on Quarta-feira, 13-02-2008

docglas.jpgUm médico estende ao amigo uma caixa de cigarros, para que este se sirva, após generoso jantar. O amigo agradece e responde: «Este cigarro tem bom ar. Deve ser bom. Ainda bem, porque eu já começava a ficar preocupado. Sendo médico, tu saberás que os melhores cigarros são os mais venenosos. Estava com medo que me fosses oferecer um daqueles que não prestam.»

O fait divers passaria despercebido, se o médico não fosse o Doutor Glas, personagem cujo nome serve de título a este romance do sueco Hjalmar Söderberg. Meia dúzia de páginas antes, o médico tinha estendido uma caixa a um outro conviva de mesa num café, o clérigo Gregorius, que passado pouco tempo caíra redondo, vítima de enfarte. Em vez de cigarros, Gregorius aceitara tomar o comprimido vivamente recomendado pelo médico como sendo bom para melhorar o mal-estar e as palpitações que se seguem a uma refeição. Era um comprimido de cianeto.

O que pode levar um respeitado médico de família, dedicado à profissão, a induzir um paciente a tomar cianeto e, deste modo, executar um assassínio? Em que circunstâncias pode um médico, aliado da vida, encontrar na morte a resposta mais ética?

Neste romance em forma de diário vamos acompanhando os dilemas do Doutor Glas, na procura de uma verdade moral, como um carrossel, impossível de apreender. Como diz o seu amigo Merkel: «A verdade é como o sol, o seu valor depende inteiramente da distância a que estamos dele.»

Quando da sua publicação em 1905, na Suécia, Doctor Glas causou escândalo por apresentar um médico que defende a eutanásia e o aborto, práticas que apenas não exerce por hipocrisia, mas a questão da morte neste romance estende-se bem para além disto. O Doutor Glas nunca cederá às inúmeras súplicas de pacientes grávidas contra vontade; nem se pode chamar “eutanásia” ao que acontece. Quando Helga Gregorius o procura no consultório para que a ajude a livrar-se das atenções sexuais do clérigo Gregorius, o marido indesejado, e poder assim viver livremente o romance com o seu jovem amante, está longe de imaginar o alcance deste pedido. Está longe de saber que, para este homem solitário e virgem, que se define como um observador da vida dos outros, este será um chamamento à acção e, por assim dizer, à vida. Assistimos ao seu sofrido debate interior, e vemos como num processo próximo do de Raskolnikov de Dostoievski, surgem os argumentos contra e a favor do assassinato, e como toda a lógica o decide a agir. A defesa do amor dos dois jovens constitui, para o Doutor Glas, uma questão de vida ou morte. No entanto, o Doutor Glas, na sua inexperiência, não se apercebe da sua própria distância do sol. Não sabe que com a morte do clérigo, o amante de Helga rapidamente se desembaraçará desta para casar com outra, e que Helga acabará grávida, abandonada, sem nunca mais lhe dirigir palavra. O seu é um erro de cálculo que surge da inexperiência do amor, da distância que o leva a pensar o amor como uma questão de vida ou morte. A verdade é o maior dos venenos, aquele que lhe irá queimar as entranhas: «A pequena quantidade de verdade que te é útil, recebe-la a troco de nada; e se está cheia de mentiras e erros, isto também é para teu bem; não diluída, queimar-te-ia as entranhas.»

Nota: As citações são de tradução minha.

Hjalmar Söderberg (2002), Doctor Glas, Anchor Books Edition, New York, pp.150 Prefácio de Margaret Atwood. Traduzido do sueco para o inglês por Paul Britten Austin

Ana Bela Almeida

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